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terça-feira, 31 de outubro de 2017

OS 500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE

Monumento em homenagem a Reforma, em Genebra, Suíça. Reparem que não possui as imagens de Lutero ou Zwinglio. Da esquerda para a direita: Guilherme Farel, John Calvino, Theodore de Beze e John Knox.

Hoje fazem 500 anos em que um monge alemão chamado Martinho Lutero pregou suas 95 teses nas portas da Catedral de Wittenberg, e deu início ao movimento da Reforma Protestante. Um movimento que se espalharia pelo mundo. Começaria com reuniões em templos católicos, mas nem sempre era assim. Ao contrário da Igreja Romana, os templos não têm essa grande importância para os protestantes. Só têm importância durante o culto, e isso para aqueles que o possuem. Os protestantes receberam esse nome devido ao documento de protesto da Dieta Imperial de Speyer, em 1529, que pretendia uma unificação religiosa na Europa. Essa partição gerou um movimento que logo rivalizaria com os católicos e ortodoxos. Mais tarde, o protestantismo se tornaria um dos maiores movimentos religiosos da História. Pregadores, como Billy Graham ou Benny Hinn, fizeram tremer multidões não só na América Anglo-Saxônica em geral, mas também na América latina.

Mas o protestantismo começou mais simples. Começou no Renascimento europeu, com escritores como Lorenzo Valla ou Manuel Chrisoloras, que mudaram para sempre o modo como se entenderia as Sagradas Escrituras. Para muitos católicos isso foi apostasia. Para nós, libertação. Os padres do século XV eram, em sua maior parte, ignorantes. Não davam a pregação da biblia que o povo necessitava. Superstições apareciam em várias partes da Europa. Em 1484 o papa Inocencio VIII dava ao mundo aquilo que em breve seria conhecido como Maleus Maleficarum(martelo das bruxas), onde se ensinava a reconhecer os sinais de bruxaria. Temia-se bruxas em escalas histéricas. O diabo era mais citado que o próprio Deus. Antes da Reforma houve uns pré-reformadores como John Wicliff ou John Huss, onde ambos prepararam um caminho bem excelente para o que viria a ser. Mas faltava uma coisa para a dose desse sucesso: A invenção da Imprensa. Esta caberia ao alemão Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutemberg, ou simplesmente Johannes Gutemberg, que inventou a imprensa em meados do século XV. Essa invenção fez toda diferença, pois permitiu a multiplicação de bíblias escritas por toda Europa, abaixando o seu preço, e espalhando pelo continente.

Tudo começou no dia 31 de outubro de 1517, com o Monge Agostiniano Martinho Lutero pregando suas 95 teses contra a venda de indulgências na porta da catedral de Wittenberg. Lutero não era contra as indulgências, mas contra a venda delas. É óbvio que não se podia vender perdão. Após o luteranismo converter vários príncipes alemães, parece que deu uma força aos reinos do norte europeu, como Suécia, Noruega e Dinamarca. Isso fora o ducado de Brandemburgo. O jeito como se espalhava preocupava a Europa. No sul da Alemanha atual(embora esse país não existisse na época) começou, simultaneamente a Lutero, a surgir outro reformador: Ulrico Zwinglio! Um padre da Suíça alemã que vinha pregando em várias paróquias naquela região. Dizem que Zwinglio chegou a decorar todas as cartas de Paulo em grego! Não era para menos. Estudioso, tal como Lutero, começou uma grande reforma suíça. Em breve surgiria um grande desafio para Zwinglio: Os Anabatistas.

Os anabatistas eram cristãos anarquistas, que abriram mão de templos, sacerdotes e rituais, e faziam seus cultos na clandestinidade, nas florestas da Baviera. Um deles, Thomas Müntzer, começou a Guerra dos Camponeses,ao qual Lutero chamou de 'Revolta Maldita'. Guiou os camponeses sob a bandeira da revolta imperial. E essa bandeira era semelhante à bandeira LGBT de hoje,sendo que só tinha 5 cores. Era caçado,tanto por católicos como por luteranos. Mas depois, considerando todo patriotismo como maldito,separou-se dos luteranos. Reunia-se com seus discípulos na floresta negra,ao sul da Saxônia.Os revoltosos baseavam-se na Bíblia para afirmar que os camponeses nasceram livres, e reivindicavam a livre escolha dos líderes espirituais, a abolição da servidão, a diminuição dos impostos sobre a terra, e a liberdade para caçar nas florestas pertencentes à nobreza. Lutero condenou o movimento dos camponeses, apoiando os príncipes e nobres. Houve uma batalha dos senhores feudais contra os anabatistas. A batalha foi em Frankenhausen,onde os anabatistas foram derrotados,e Muntzer foi decapitado. Para entendermos a História, por que eram caçados? No século XVI não havia censos de IBGE como há hoje. Então, a única maneira de contar a população era pelos batismos. Dessa maneira,podia-se contar tanto os impostos a cobrar, como camponeses prontos a lutar pra uma guerra. Acontece que Muntzer pregava batismos somente em adultos. E isso complicou o cenário. O exército de Suleimã,o turco, estava invadindo a Europa. E o imperador precisava de soldados(e dinheiro)para a guerra. Martinho Lutero chamava os turcos de 'exército do anticristo',e dizia que os anabatistas eram culpados pelo fracasso das tropas imperiais. Muitos anabatistas fugiram para o leste da Hungria após a morte de Muntzer. Foram bem tratados pelos príncipes islâmicos vassalos de Suleimã. Tanto que na invasão à Viena por parte dos turcos,em 1683, o chefe da invasão era um príncipe protestante húngaro. Os anabatistas logo foram acusados de conivência com os islâmicos. As interpretações dos fatos eram confusas,pois a maioria do povo era analfabeto. Zwinglio chamava os anabatistas de 'cães da selva'. Ele fez questão de dar um presente todo especial a Felix Manz, primeiro mártir anabatista de fato. Disse que daria a ele,e muitos dos seus, um terceiro batismo. E isso o fez afogando-os no rio Elba. Felix foi afogado no rio Limmat. Hoje há uma placa comemorativa em Zurique. O cronista alemão Ekkehard Krajewski escreve sua biografia.

Enquanto isso na França nascia um novo movimento: O calvinismo! Divulgado por um reformador chamado João Calvino, que era uma espécie de advogado astuto, misturado a um oportunismo perspicaz que soube aproveitar o momento. Este foi único dos primeiros reformadores que não era clérico. E foi o único cujo movimento teve alcances mundiais. Fez sua reforma, incluindo sua obra famosa 'Principios da Religião Cristã'. Suas ideias, surgidas na França, tiveram que ser pregadas em Genebra, na Suíça, por perseguição aos seus discipulos em território francês. Os calvinistas franceses foram conhecidos como 'huguenotes', muito provavelmente por se reunirem em um dos castelos do antigo rei medieval Hugo Capeto. Se reuniam na clandestinidade. Mas em breve aumentaram em número(e armas), e preocuparam os católicos da França. Seu líder nessa época era o almirante francês Gaspar de Coligny, que aconselhava ao rei Carlos IX, para desespero da rainha mãe, Catarina de Médici. Em breve se aliariam com o chefe da liga católica na França, o Duque Henrique de Guise. Dessa aliança resultaria o maior massacre protestante da História: O massacre de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572. Até hoje, na capela Sistina, na 'Sala Régia', existem as pinturas de Giorgio Vasari, que mostram os triunfos da Igreja Romana, onde quatro delas relatam o massacre de São Bartolomeu, onde cerca de 20.000 huguenotes foram mortos numa noite. O papa Gregório XIII ordenou a pertpetuação da memória desse acontecimento, cujo aniversário arrancou lágrimas do velho Voltaire. Em todos os lugares do mundo, a residência do sumo pontífcie é o único em que o assassinato é comemorado.

Mas o castigo viria, literalmente, a cavalo. Carlos IX, o rei da França desse massacre morreu de forma agonizante. O duque de Guise seria assassinado. O seu irmão Henrique III sucedeu-o, pois ele não tinha filhos, mas também foi assassinado. Quem sucedeu o trono foi o genro de Catarina de Médici, cunhado do rei falecido, Henrique IV, o rei de Navarra. A partir daí os huguenotes cresceriam a tal ponto de fortalecer os protestantes na Holanda, Suíça e Brandemburgo. No alvorecer do século XVII nasceria o último conflito religioso da Europa. A Guerra dos Trinta Anos(1618-1648) acabaria para sempre com as chances de unificação religiosa por Roma. Em principio a liga protestante estava vencendo, com a ajuda do rei da Suécia, Gustavo Adolfo. Mas o rei do norte viria a se tornar um vencedor de batalhas, e a liga católica, ao comando do general Wallenstein, conseguiu estender a luta até a batalha de Lützen, em 1632, com a vitória sueca e morte do rei da Suécia. Esse general em breve trairia o imperador em prol da França, e seria assassinado. A partir daí haveria perdas do lado protestante, até a França entrar na guerra. O ministro da França, cardeal Richelileu, era um honmem mais próximo da coroa da França que do papa. Sendo assim, se aliou com a liga protestante. Essa aliança deu a vitória protestante na guerra. O tratado de Westfália, em 1648, foi condenado pelo papa por prolongar a divisão da cristandade, e reconhecer as alas protestantes. Mas não tinha jeito. O futuro não mais reservaria a religião como motivo de conflitos no Ocidente. Um príncipe poderia mudar de religião sem que seus súditos fossem obigados a fazê-lo. Nascia o berço do estado do laico. Para muitos, seria o embrião do ateísmo. Para outros, o nascimento da liberdade. Aos poucos a religião deixou de ser decisiva nas relações internacionais na Europa. Por isso que se deve enfatizar que todo protestante que é contra o estado laico, com tudo de bom ou ruim que isso acarrete, apenas cospe no prato em que comeu. A crença protestante deu origem a pensamentos nunca vistos. Apesar de seu fundamentalismo(foi no protestantismo que esse termo surgiu)do inicio do século XX, em reação ao darwinismo, é preciso reconhecer que foi no protestantismo que o darwinismo nasceu. Charles Darwin era protestante, não ateu. Era ministro anglicano também. Morreu agnóstico, mas ateu nunca foi. Tanto o fundamentalismo religioso, como o evolucionismo, são filhotes da Reforma Protestante. Todos esses movimentos são filhotes da liberdade. Feliz 500 anos a todos os protestantes que assim comemoram!

Um comentário:

  1. Adorei o post!
    Verdadeiras aulas de história suas postagens, perfeitos.

    www.detudopouco.com.br

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