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domingo, 28 de abril de 2019

A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO OCIDENTAL

Roma, a lendária. A vitoriosa. A capital dos césares. Maior que Atenas, maior que Alexandria, maior que Antioquia. A maior do mundo nos dias áureos de seu glorioso império. A primeira cidade da terra a possuir um milhão de habitantes. Sua ascensão e queda foram profetizadas por Daniel, quando ainda estava em vigor o império babilônico. Muitos, inclusive o teólogo Agostinho de Hipona, associavam a sua glória, na época já decadente, a conversão do cristianismo. Ao escrever 'Cidade de Deus', Agostinho deu vida àquilo que mais tarde viria ser conhecido como civilização judaico-cristã, que segundo muitos segura as normas da chamada 'civilização ocidental'. Era uma ideia perfeitamente estúpida, mas as pessoas dos séculos IV e V estavam dispostas a crer em qualquer coisa. É como se fosse um livro de auto ajuda dos fins da antiguidade.

Roma, como império, surgiu em 27 a.C. , após a batalha de Ácio. Foi quando Otávio Augusto assumiu toda a república romana como 'príncipe do senado e imperador das legiões'. Maquiavel fala disso, em tom elogioso, em seus escritos. A Roma republicana era uma sucessão de guerras civis, que até traziam vitórias, como as guerras púnicas, mas guerras como de Mário e Sila consumiam os cofres da república. Mas Otávio, agora chamado de Augusto(título que se estenderia aos outros imperadores), levaria Roma a fronteiras inimagináveis. A partir dali o império passou a estender suas fronteiras, que iam da Síria até a Bretanha, ainda envolvendo o norte da África e o Egito. No fim do século II, já com o imperador Marco Aurélio, Roma havia atingido o máximo de sua extensão.

A partir do início do século III começa a decadência. Por quê? Porque a larga extensão do império não comportava mais só possuir súditos da península italiana como seus cidadãos. A cidadania era almejada por muitos. E não só isso, mas a própria Roma precisava estender essas cidadanias para poder suprir as fileiras de seu exército. A ganância estava abrindo as portas para a destruição. Quando, em 212 d.C., o imperador Caracala concedeu cidadania a todos os súditos livres, foi estabelecido um elo comum. Daí um cidadão romano passava a ser uma espécie de 'cidadão do mundo'. Povos bárbaros de todos os cantos(aqui uso o termo grego para a etimologia de bárbaro, ou seja, aqueles que falam idiomas desconhecidos) agora vinham engrossar as fileiras do império. Isso ao ponto do pai do último imperador romano Romulo Augusto, Orestes, ser de etnia dos godos. Após a ascensão de Alexandre Severo, houve em 50 anos, 43 imperadores. Todos generais. Mas a disputa era letal. Trinta e sete deles pereceram de morte violenta. Quando muitos analisaram a possível queda do império e a religião, confundiram os sintomas com a doença. Não tinha mais como salvar o glorioso império. Bárbaros de todos os cantos forçavam as fronteiras. E quando o império caiu, todos esses grupos partilharam seus despojos.

O primeiro saque que Roma sofreu na História foi de Brennus, chefe das tribos celtas da Gália Transalpina. Foi em 350 a.C., e arrasou a cidade. Após devastar o exército, pronunciou a famosa frase "Vae Victis"(pobres dos vencidos). Então, em 410 d.C., quando Alarico, rei dos visigodos, saqueou a cidade, o primeiro saque ainda estava na memória.

No final do século IV um povo, até então desconhecido, começou a invadir a Europa:Os Hunos! Estes eram bárbaros tártaro-mongóis, parentes dos chineses, que vieram a cavalo da fronteira da China, em busca de terras. Com essa invasão, bárbaros germanos, como os godos do oeste(visigodos) ou do leste(ostrogodos) buscaram refúgio dentro das fronteiras do Império Romano. Roma aceitou refúgio, desde que se alistassem no exército, e ajudassem a proteger as fronteiras. Foi um erro grotesco. Como os romanos exploravam os godos em suas fazendas, estes se revoltaram. Foi preparada uma batalha, nas planícies de Adrianópolis, dentro da Sérvia atual. As legiões do imperador Valentiniano puderam contar com que viram: Cerca de 20.000 guerreiros visigodos na planície. Porém só não contaram com que não viram, a cavalaria dos ostrogodos, que descia a montanha como raios de tempestade. Cercaram as legiões, formando um cinturão. O próprio imperador Valentiniano jazia morto no campo de batalha. Os godos ganharam o direito,a partir daí, de se estabelecer dentro das fronteiras do Império. Desde meados do século III que o exército romano contratava bárbaros germânicos para suas fileiras. Isso era perigoso, pois estes retrocediam aos seus povos após a guerra, levando as estratégias romanas com eles. O fim parecia estar perto.

O fim veio no fim do século V, quando o império só era uma sombra do que fora outrora. Átila, rei dos Hunos, forçou as fronteiras do império por vários lados. Isso obrigou Aecius, general romano, a formar uma aliança com povos bárbaros, como francos, suevos e visigodos. Tudo se desenrolou na Batalha de Chalons(451), no que hoje seria a região de Champagne, na França. Vitória romana. Mas os 'aliados' viriam a cobrar seu preço mais tarde. Quanto a Átila, este voltaria. Um ano depois Átila cercaria Roma. O papa Leão I veio implorar por um acordo. Conseguiu que os hunos fossem embora. Átila morreria pouco depois.

Porém o cerco dos hunos despertou outros povos, como os vândalos, do norte da África. Grupo germânico que veio descendo a Europa, até que pela Espanha invadiu o norte da África. Agostinho, ao escrever "A cidade de Deus", tentava dar um conforto divino ao império. Conforta-los pelo saque visigodo em 410. Sorte dele não ter visto esse mesmo império devastado pelos vândalos. Sem falar nos hunos e nos heruclos. Como Agostinho morreu antes, não viu a cidade de Hipona, sua cidade natal, devastada pelos vândalos. Com respeito a Roma, os vândalos cercaram a cidade. A coisa foi tão feia que o mesmo papa Leão I veio pedir por clemência. Tanto fez que conseguiu uma promessa de moderação vândala. O bispo de Roma resolveu então, em sinal de boa fé, deixar os portões de sua amada cidade aberta aos bárbaros. Doce ilusão! Genserico, rei deles, resolveu ensinar ao mundo o verdadeiro significado da palavra vândalo. Os saques deixaram zerados os tesouros dos templos. A "Cidade de Deus" de Agostinho era agora consumida nas cinzas. O Império resistiria, a trancos e barrancos, até 476 d.C., quando Odoacro, rei dos Héruclos, destruiria o que restava do Império. Era o início da idade média europeia.

Ao comparar essa queda, muitos incautos podem associar com a Europa e seus imigrantes sírios. Mas não é. Quem se aproxima deste fim são os EUA. Do mesmo jeito que Agostinho, muitos escritores cristãos falam da "glória da América como região de Deus". Mas cristãos reais sabem que não é. A Europa está entrando numa era de metade xenofobia, metade secularismo. Os EUA estão no sentido oposto. Mas cometem o mesmo erro que Roma cometeu no século III: Estender a cidadania norte-americana a todos os povos. E com uma missão com tendências civilizatórias. Tal qual Agostinho. Por isso que, assim como Roma, não cairá devido a invasão. Nenhum grupo bárbaro se atreveria a invadir Roma. O império caiu porque implodiu de dentro para fora. As invasões não foram sua doença, mas os seus sintomas. E, assim como ocorreu no século V, muitos vão imaginar que será o fim do mundo. Mas não será, como não foi na época. A civilização humana sobrevive a mais coisas do que isso...

segunda-feira, 4 de março de 2019

O ESTADO LAICO SEGUNDO MARSÍLIO DE PÁDUA

Estamos em pleno século XIV. Época de três coisas que abalaram a Europa e também a cristandade: O cativeiro de Avinhon, a disputa imperial entre Luis da Baviera(mais tarde imperador Luis IV do sacro império) e Frederico da Áustria e a peste negra. Era de se esperar que essas confusões haveriam de balançar a fé dos cristãos medievais.

Dominados pelo raciocínio da escolástica como os europeus estavam, sob as sombras de escritos como 'A Suma Teológica' de Tomás de Aquino(1225-1274) ou até sob o misticismo de John Scotus(810-877), monge místico irlandês que foi colaborador do espalhar da heresia mariana no ocidente, os europeus viam os escritos de Marsílio de Pádua(1275-1342) com desconfiança. Escritos como 'defensor pacis'(defensor da paz), em que separa completamente a teologia do direito, foram vistos como apostasia.

Dentro do sistema proposto por Marsílio de Pádua, o Papa não poderia intervir no Império e o príncipe estaria assim totalmente livre da ameaça de excomunhão por parte do Papa. A legitimidade do poder daquele que deve governar, e mesmo a autoridade daquele que deve interceder pelas almas, está agora nas mãos da universalidade dos cidadãos, o legislador humano fiel. O clero está então reduzido a funções rituais. Caberá a ele a cerimônia, as celebrações dos ofícios, a pregação, a advertência dos pecadores, e poderá ser consultado pelo príncipe quando estiver em jogo a saúde espiritual do povo. Segundo Marsílio, "os príncipes, agindo conforme as leis, a força e a autoridade, que lhe foi confiada, deverão precisar os demais grupos sociais ou ofícios da cidade, a partir da matéria conveniente, quer dizer, as pessoas dotadas com essas ou aquelas aptidões ou hábitos específicos para exercê-los".

Marsílio de Pádua argumentava ainda que, quando Jesus falou aos discípulos que, por amor da verdade, eles seriam conduzidos à presença dos reis, não estava o Cristo falando que deveriam eles governar; pois o próprio Jesus não governou e ainda disse a seus discípulos que estes de modo nenhum podem ser maiores que o seu mestre. Portanto, se Cristo não governou, os apóstolos também não podem governar no âmbito civil. Isto combina com a fé dos anabatistas, como Thomas Muntzer(1489-1525) ou Félix Manz(1498-1527), que seguiam as ideias de Marsílio mesmo sem o saberem.

As confusões geradas por isso foram tanto religiosas, como civis. O papa João XXII, antigo cardeal Jacques de Cahors, que assumiu o trono pontifício com 72 anos, acobertado pelo rei Felipe V da França, não via nem Marsílio, nem os 'Fraticelli'(franciscanos a favor da pobreza incondicional)com bons olhos. E a disputa pelo trono do Sacro Império Romano(que segundo Voltaire não era nem sacro, nem império,nem romano) viria a piorar as coisas. Mas o que estava acontecendo na Germânia imperial naquela época?

O papa João XXII acreditava, assim como seu estúpido antecessor Bonifácio VIII, que o papa tinha exclusivo direito de investidura sobre os príncipes cristãos. Ora, aconteceu que 1314 foi eleito imperador, pela maioria dos alemães(na verdade eram os nobres que elegiam), Luís da Baviera. Uma minoria, porém tinha escolhido a Frederico da Áustria. Ambos os eleitos pediram o reconhecimento do papa, mas João XXII se mostrou neutro. Luís IV assume o trono em 1314 e começa a combater Frederico numa luta interna. Em 1322 ele vence o opositor e se torna único Senhor da Alemanha, depois de prender Frederico. Mesmo assim o papa João XXII não quis reconhecê-lo como Imperador da Alemanha, alegando que em caso de eleição dividida cabia ao pontífice decidir e não ele decidi-la pelo uso da força. A crise aumentou por causa da administração da Itália: esta, em caso de vacância do trono imperial da Alemanha, deveria ser administrada pela Santa Sé. João XXII fez uso deste direito enquanto durava a luta na Alemanha confiando ao rei Roberto de Nápoles, a administração italiana. Luís IV não quis tolerar este estado de coisas, nomeando em 1323 o Conde Bertoldo Neiffer como seu representante na Itália. O Papa João XXII então intimou-o, sob pena de excomunhão, a depor o conde dentro de três meses e esperar que a Santa Sé decidisse a questão da legitimidade. O Imperador Luís IV alegou que o papa não tinha o direito de se intrometer em questões internas da Alemanha e depois de acusá-lo de favorecer hereges apelou para a convocação de um Concílio Ecumênico a fim de julgar o caso. Acontece que um papa não pode ser julgado por um Concílio, mas a ideia de se convocar um Concílio acima do papa começaria a ganhar força a partir de então. Como consequência, o papa João XXII excomungou o Imperador Luís IV em 23 de março de 1324. Este reagiu com um libelo onde acusava o papa de herege e perturbador da ordem pública. Novamente voltou a pedir um Concílio Ecumênico para julgar João XXII. Dessa forma entrou em curso o último grande conflito entre o Papado e o Império ( Sacro Império Romano Germânico ) na Idade Média.

O imperador Luis da Baviera teve êxito em sua disputa, até vários anos mais tarde, quando entraria em conflito com Carlos da Morávia, que assumiria o trono imperial como Carlos IV. Mas a disputa contra o papa, que colocava o religioso acima do secular, estava vencida. Mas por que isso ocorreu? É aí que entra Marsílio de Pádua, onde foi reitor da Universidade de Paris entre dezembro de 1312 e março de 1313, não mais poderia continuar por lá. Marsilio tomou partido do imperador, tendo que fugir da França, para ficar sob a proteção do imperador Luis IV. Porém os próprios imperadores da Alemanha, reis da França e da Inglaterra não mais dariam razão ao clero de forma incondicional. Além disso, imperícia política, aliada a falta de recursos do imperador para manter o exército, os saques, somados às tropas enviadas contra ele por João XXII, fizeram com que os romanos se revoltassem e o imperador tivesse que recuar para o norte da Itália e, por fim, voltar para Munique. Sendo assim, Marsílio, acompanhou o imperador na fuga para o norte. Porém a batalha entre o clérico e o secular estava selada. Cerca de trinta anos após sua morte, haveria uma cisma papal em que coexistiriam três papas. Foi preciso o Concilio de Constança(1415) para acabar com isso. Todos esses passos abriram as portas para a Reforma Protestante, assim como o secularismo europeu, sob a bandeira pacifista de Hugo Grotius, após a Guerra dos Trinta Anos(1618-1648). Por isso que sempre digo que resistir a isso é 'dar socos em pontas de facas'.

A idade média e o teocentrismo para governos civis estavam acabando. Seu xeque mate seria dado na Revolução Francesa em fins do século XVIII e a filosofia de Friedrich Nietzsche(1844-1900). Infelizmente, muitas coisas inocentes também pagaram o pato com isso. Mas esta foi a colheita de uma igreja teimosa, que defende para si o que não lhe compete. Nosso universo de ser cristão ultrapassa muitas vezes tudo isso. A paz de Cristo a todos!

"Mas a nossa pátria está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas." Filipenses 3:20,21

Meu retorno ao Facebook após os desgastes dos últimos anos

Resolvi voltar ao Facebook com perfil novo, vida nova e educação nova também. No perfil antigo, tanto atacava ideias, como fui atacado. Os conflitos de ideias aconteciam. Agora sou da paz. Mas uma paz com leis, estabelecidas por mim no novo perfil do Facebook. Quem faltou com respeito não mais faltará, por isso muitos não serão aceitos no meu novo perfil. Principalmente aqueles que me tinham como 'apóstata' ou 'blasfemo' do cristianismo. Não necessito mais explicar tais coisas a pessoas que parecem ter o raciocínio de um babuíno. Sou protestante anabatista. Se alguém quiser, explico historicamente a origem disso. Eu me reúno com pessoas para estudos bíblicos e oração nos lares. Agora já tem até mais grupos pretendidos. Estou tentando entrar em contato com mais grupos no estado de Santa Catarina, através do meu blog, onde há áreas de imigração alemã e suíça, donde essa cultura cristã inicialmente surgiu. Muitas novidades prometem nesse ano de 2019.

Quem recebeu um convite meu, sabia que nunca houve desacato ou desentendimento entre nós. Aos demais, não serão aceitos convites. Não adianta insistir. Sob nenhuma alegação. Porém podem vir comentar na minha página, se quiserem. O meu perfil foi e sempre será público. Respostas em desacato serão deletadas, quantas vezes for preciso. E isso sem aviso prévio. Não bloqueio ninguém, pois não creio que isso traga algum aprendizado. Muitos não serão enviados convites, mas serão aceitos se enviarem. Simplesmente não envio porque enquanto estiveram no meu perfil, não participavam.A rede social serve pura e simplesmente para divulgar meus textos aqui do blog.

O meu primeiro perfil durou oito anos. No início eu não postava quase, pois era adepto da ÚNICA rede social que me serviu na vida: O Bolsa de Mulher! Site idealizado pela empresária gaúcha de mídias sociais Andiara Petterle, o Bolsa foi anterior ao facebook para mim, pois me serviu como minha 1ª rede social na vida. Lá aprendi sobre liberdade em relacionamentos, coisa esta que muitas amizades evangélicas que tenho rejeitam até hoje. Não lhes devo explicações. Eles não estão interessados nisso. Neste primeiro perfil de facebook cheguei a ser expulso de mais de 200 páginas(sem exageros). Em uma delas, entitulada "fora Jean Wyllys", que tinha mais de 400.000 seguidores, foi cortada pelo facebook. O corte ocorreu após eu ter 80 respostas embaixo da minha, onde defendia de calunias contra o ex-deputado Jean, uma das quais dizia que ele teria um projeto sobre cirurgia infantil de redesignação sexual. Depois dessa estupidez,a página foi cortada, pois a acusação era ilegal. Após essa guerra vi meu nome associado em várias páginas cristãs no facebook, como se eu tivesse denunciado. Mal sabem eles que EU NUNCA DENUNCIEI PÁGINA ALGUMA NESSES OITO ANOS DE FACEBOOK. E depois disso, algumas páginas fui, além de expulso, bloqueado. Ou seja, a página sumiu para mim. Se isso já aconteceu com alguém, desconheço. Mas comigo ocorreu.

Minhas pautas, além do evangelho anabatista, são direitos civis LGBTs(não é por isso a foto colorida que às vezes uso, mas é devido ao estandarte anabatista), a não criminalização do aborto(não significa que eu seja a favor do aborto) e várias pautas liberais que há pelo mundo. Direitos civis cristãos, não vejo necessidade. O nosso Deus é uma garantia maior que isso. Quanto a "ser de esquerda" ou "ser de direita", não creio mais nessas definições, pois colocaram pautas morais nelas, coisa que faria o próprio Voltaire se virar no túmulo. Sou livre dessas amarras. Minha visão de século XXI vai bem mais longe. Termino esse texto com a frase que criei no Bolsa de Mulher no final de 2010, a qual serviu de molde para foto de capa no Facebook: NENHUMA UNIÃO VALE O PREÇO DA MINHA LIBERDADE!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Um casamento segundo a vontade de Deus

Como seria um casamento sob restrições estritamente bíblicas? Não existe nenhum texto bíblico pra sustentar essa insanidade de SEXO ANTES(ou depois)DO CASAMENTO! Só existe CASAMENTO, que pra Deus é o sexo, e mais nada. Se tiveres relação com uma mulher, não poderás casar com outra, pois será adultério. Durante séculos da era cristã foram colocados tradições, algumas já no segundo milênio, que extrapolavam a bíblia, para ditar as regras do casamento. Uma dessas muitas regras é essa historinha de "não pode sexo antes do casamento". O casamento religioso é invenção humana. Essa invenção provém do Concilio de Trento, onde escritos como "manual do confessor" de Portugal, que foi o primeiro livro impresso em língua portuguesa, ditava até as posições sexuais dos noivos. Até aquele momento da História as pessoas moravam juntas, como estando casadas. Mas isso não é aquilo que chamam de AMASIADO? NÃO! Esse termo nem na bíblia existe. Mais tarde, como muitos homens passaram a morar junto com várias mulheres, a Igreja Romana instituiu o casamento religioso como maneira de proteger a mulher.

E aquilo que chamam de FORNICAÇÃO? Este provém do ato de fornicar. Fornicação significa puramente ADULTÉRIO! O termo FORNICAR surgiu do latim "fornix", que seria uma espécie de aboboda, que em tempos do Império Romano era entrada de prostíbulos, por onde os homens iam para divertir-se e ter suas relações FORA DO CASAMENTO. Porém repare que a palavra passou a significar qualquer relação sexual FORA DO CASAMENTO, não ANTES DO CASAMENTO, como o povão em geral diz. Mesmo esses dois significados quase sempre significando a mesma coisa, não são sinônimos. Que relações seriam fornicadoras, então? Adultério(traição), bestialidade(relações com animais), pedofilia(com crianças), enfim com qualquer pessoa, animal ou coisa que não seja o seu cônjuge. Quem primeiro apresentou um significado estendido desta palavra foi o humanista espanhol Alfonso de Palencia(1423-1492). Este foi um excelente linguista e biógrafo do mundo latino, tendo escrito a biografia do rei Henrique IV de Castela.

Existe uma única palavra no grego para designar adultério ou prostituição:PORNEIA! Mas a significação de "antes do casamento" que o povão, em geral, traduz, nunca existiu. Portanto, como seria o casamento segundo a biblia? É segundo o modelo de Isaac e Rebeca. Pegue seu par, monte sua casa e seja feliz. Qualquer outra coisa além disso é enfeite. A bênção de um sacerdote pra noivos nunca existiu na bíblia. Nem na história. O único lugar em que isso acontece é nos estúdios de Hollywood e da Record. Portanto, morar junto não é concubinato. A tradução de concubina é escrava! É um termo muito mais sério do que parece. O simples fato de morar já é casamento. Implicando em todas as obrigações e maldições(caso separe) que um 'casamento' religioso implica. Muito dos nossos conhecimentos vem da fantasia dos nossos ouvidos, mais que da própria realidade.

Muitos não sabem, mas o Ato do sexo já é a 'união biblica' ditada em Gn 2:24. Pois, ao ter aquela relação, Deus casou-os naquele momento. Por isso não se deve ter relação com prostitutas. E essa relação com a primeira mulher não é namoro(até porque esse termo nem tem na biblia), nem concubinato. É CASAMENTO! Muitos falam de coisas que não têm nas escrituras. Casamento com bênção sacerdotal nunca existiu, nem na biblia, nem na Historia. FORNICAÇÃO, que é o termo normalmente usado, significa simplesmente "ADULTERIO", e só. Mas o povo dá significado errado às palavras. Um exemplo é o significado torto da palavra HERESIA. Por quê? Porque se você vai procurar a palavra HERESIA no dicionário, não dará o significado real, somente DICIONARIOS ETIMOLOGICOS o farão. A Palavra HERESIA significa ESCOLHA. E isso nos dois lugares da biblia em que se encontra(Gl 5:20; 2 Pe 2:1). Portanto, o termo HEREGE nem existe. Somente heresia, que para ter significado maléfico, precisa de outra palavra como complemento.

Quais termos são biblicos realmente? Amasiado tem na bíblia? Não! E Casamento, noivado, namoro,etc? Só o primeiro é bíblico! Se uma mulher tiver 5 namorados, e tiver relação com os 5, será esposa de algum deles? Sim. Do primeiro. O ato da relação sexual JÁ CONFIGUROU CASAMENTO PERANTE DEUS. Por isso que não se deve ter com várias pessoas. O pecado vai corroer a pessoa por dentro. A biblia diz que a união de homem e mulher FAZ OS DOIS UMA SÓ CARNE. E o que seria essa "União"? A bênção do pastor? Não! É o sexo! Mais nada. Mais nada? Mais nada, e só. Por isso que a separação de quem já fez sexo dói como uma carne rasgada. Preste muita atenção com quem se tem sexo, isso não é brincadeira. Se alguém não tem como voltar para o seu ex-cônjuge, só peça perdão e cura interior a Deus, pois vai precisar, sabendo que tudo tem colheita. Por isso não se faz sexo com prostituta, porque se torna uma só carne com ela.

A Bênção sacerdotal, como conhecemos hoje, surgiu com o DECRETO TAMETSI, em 1563. Até ai não havia União religiosa, quanto mais civil.Não, pelo menos, da forma oficial. O bispo São Valentim(176-273) realizava cerimonias no século III, entre cristãos. Mas eram impregnadas de cerimonia pagã(que incluía partes como casamentos de deuses, daí veio a aliança nos dedos), mesmo sem muitos se importarem, nem mesmo o bispo. Eles não tinham respaldo da biblia pra isso, mas faziam isso sem ser obrigatório. Por quê? Porque o imperador Claudio II estava dispensando da guerra os soldados que fossem recém casados. Este foi o motivo do nascimento dessa cerimônia entre cristãos. Precisariam passar cerca de 1200 anos para que isso fosse oficializado. E nas Bodas de Caná(João 2),não houve cerimônia?Não! As bodas foram aquilo que chamamos da festa do casamento. Alguém viu algum sacerdote celebrando por ali? Eu também não! A Rede Record faz pior, coloca LEVITAS para fazer casamento de Davi e Mical. ISSO NUNCA ACONTECEU! Aliás, NEM NA BÍBLIA, NEM NA HISTÓRIA! Ainda tem alguns sem cultura bíblica alguma, que creem piamente que Jesus foi o sacerdote que celebrou aquela união. De onde tiraram isso? Eu não sei. Talvez seja aquela crença inexistente, que muitos inocentes creem, QUE CASAMENTO PRECISA TER LIGADURA DA IGREJA. ISSO NÃO TEM EM PARTE ALGUMA DAS ESCRITURAS. Querem pedir as bênçãos ao sacerdote(como vocês falam, embora sacerdote seja mediador)? Podem fazê-lo, mas obrigatório não é. O povo fala muito do que não conhece...

O cânon do Novo Testamento existiu?

Há algum tempo foi-me interrogado sobre a existência, ou não, do chamado 'período interbiblico', nos tais 400 anos que Deus teria ficado em "silêncio" por não falar a nenhum profeta. Tem até alguns que,em suas inocencias bucólicas, referem-se às páginas em branco, entre o AT e o NT, como sendo revelativo sobre esse período.

Nunca houve,nem haverá na História, um momento de silêncio de Deus. Essa crença veio derivada do protestantismo dispensacionalista, em que fala de uma possível 'retirada' do Espírito Santo da terra. Essa é a parte onde a cronologia bíblica e a escatologia se misturam. Como se fosse possível retirar alguém onipresente de algum lugar.

A confusão se fez por causa dos chamados "livros apócrifos" do AT, em que a Igreja Romana aproveitou alguns, e as igrejas ortodoxas aproveitaram outros mais ainda. O problema é que a aceitação ou rejeição de livros do AT é uma coisa que cabe aos judeus,não a Igreja. Mas as igrejas romana e grega meteram-se em território desconhecido pra elas. O Canon judaico do AT rejeitou-os, não por inspiração, como pensam muitos. Mas pelo idioma. Esses livros nunca foram escritos em hebraico. Foram escritos direto em grego no período helênico. O termo apócrifo significa escondido. E assim foi o seu cenário. O mundo helênico seduziu muitos judeus, como os saduceus. Esses livros receberam o seu "xeque-mate" no concílio judaico de Jamnia, em 90 d.C., onde foi usado o termo "deuterocanonicos"(fora do canon). A Igreja decidiu no Concílio de Roma(382 AD) que esses livros poderiam ser úteis. O problema foi na quantidade. Muitos que os ortodoxos aceitavam, como "Oração de Manassés", os católicos rejeitaram. No concílio de Trento(1546) a Igreja Romana rejeitou muitos deles, e chamou-os de apócrifos. O importante é salientar que os livros do AT são um assunto de judeus, não de cristãos.

Mas o que são livros apócrifos? São livros escritos de forma escondida. Não é sinônimo de "livro falso". Livro falso,na idade antiga, remete à idéia de 'autoria falsa',não de 'história falsa'. Muitas coisas eram diferentes na Idade Antiga,em relação aos dias atuais. Uma delas é a nossa ideia de "Cânon". Imaginamos um grupo de judeus(ou bispos)civilizados sentados numa mesa redonda,pedindo orientação a Deus sobre quais livros escolher. Isso nunca existiu! E o contexto do AT é mais animador que o NT,pois o AT teve um cânon,mas o NT não. Esse é um dos maiores problemas que a Igreja possui. O único órgão formador de biblia até hoje chama-se Israel. O Canon do AT pode ter sido por duas vias: A reunião com Esdras ainda no período persa; ou o Concílio Judaico de Jamnia em 90 d. C. Foi neste último que os deuterocanonicos(apócrifos do AT) realmente saíram. O motivo? O idioma.

No início do século III a.C. houve uma reunião de judeus no Egito, no reinado de Ptolomeu II, que resolveu traduzir a biblia inteira para o grego. Isso ficou conhecido como a "Versão dos Setenta", pois eram setenta judeus. Mas houve alguns que não precisaram ser traduzidos, pois sempre estiveram em grego. Estes livros, como Tobias, Baruc ou Judite, sempre foram colocados sob suspeita, por serem acusados de serem falsos. Porém muitos não seriam apócrifos, mas pseudoepigrafos, como o livro de Enoque I, o etíope.

Há um critério hoje que não havia na antiguidade ou na idade média. Seria aquilo que hoje chamamos de 'direito autoral'. Então muitas pessoas boas escreviam em nome de autores famosos. Acredita-se ser esse o caso da 'Odisséia' de Homero. E também de muitos livros biblicos. Livros como Enoque I, o etiope. Ou Enoque II, o eslavo. Este último sendo escrito já no periodo de Carlos Magno, no século VIII. O livro de Enoque I, por exemplo, conta a lenda grega de gigantes filhos de anjos com mulheres, que muitos cristãos pensam estar na bíblia.

Todos os deuterocanonicos(ou apócrifos), sendo aceitos pelas igrejas romanas e gregas ou não, nunca passaram pelo hebraico. Só foram escritos direto em grego. Tanto Macabeus(I e II) como Enoque I. No caso do NT, a primeira pessoa a propor um Canon foi um herege: Marcion(85-160)! Ele foi o primeiro a juntar os livros, e até de uma maneira grosseira. A partir dele nasceu a ideia de CANON CRISTÃO, que não existia. No Concílio de Niceia(325) tentaram algo, mas não deu certo. Até que, em 367 o Bispo Atanasio formulou a CARTA DE PÁSCOA, um documento que reunia, pela primeira vez, os 27 livros do NT. Mas o Canon implicaria uma reunião, não uma 'canetada' de um Bispo. Houve os Concilios de Cartago III(397) e até o Concilio de Hipona(393), conhecido como 'sínodo de Hipona Regia', também atribuido o canon. Mas a Carta de Atanasio não encontrou fechamento geral. Tanto que muitas ortodoxas não aceitaram tal carta. A fixação de Lutero nos 39 livros(ele deixou as outras partes, somente recomendou reservas pra elas) foi por causa da amizade entre protestantes e judeus, já que católicos tinham estes como inimigos, pois ninguém confiava nos ortodoxos, fossem católicos ou protestantes. Os ortodoxos eram chamados de "amigos de muçulmanos". Quem, de fato, retirou os deuterocanônicos, foram os calvinistas ingleses. A versão do rei Jaime foi a primeira sem eles. Eles ficaram receosos da população simplória misturar tudo, quando fosse ler a biblia. Mas é sempre importante ressaltar que não existe "biblia catolica", "biblia ortodoxa" ou "biblia protestante". Existe sim, 'AT catolico', AT ortodoxo' e 'AT protestante'. No NT ninguém mexeu. Há uma unanimidade geral, onde todos concordam. Mas essa unanimidade nunca foi dado um ato oficial. Traduzindo tudo em miúdos: O nosso Cânon,dos 27 livros do NT, nunca existiu!

domingo, 30 de dezembro de 2018

A paz de Vestfália - O nascimento do direito internacional

Este ano de 2018 fez 400 anos da eclosão da Guerra dos Trinta Anos(1618-1648). E em 24 de outubro de 1648 houve a assinatura do tratado de Vestfália em Münster. E isto foi há exatos 370 anos atrás. Nascia, nesse momento, o direito internacional nos moldes de Hugo Grotius.

Quando foi feita a Reforma Protestante, o Vaticano pareceu se conformar depois de muitas batalhas e a “Paz de Augsburgo” em 1555. Porém a chegada do calvinismo complicaria o cenário. Considerada uma força renovadora, começou a conquistar príncipes e repúblicas em várias partes da Europa.

Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germanico, tinha um filho e um irmão disputando para herdar seu trono. Ambos católicos fanáticos. Quando de sua morte, em 1558, seu filho Felipe II ficou com a Espanha e suas colônias. Enquanto Fernando I, seu irmão, ficou com a Europa central. Fernando I começou pressionando a Boêmia(atual República Tcheca) para ceder ao imperialismo católico. Mas agora o Império Habsburgo estava dividido. Fernando I assumiu o império como um grande fanático católico. O próximo imperador, Rodolfo II, permitiu a liberdade de culto no império. Ânimos católicos se exaltaram, pois a liberdade religiosa significava mais proselitismo em campo católico, além de sequestro de terras do alto clero. Quando o imperador Rodolfo morreu, assumiu Fernando II, duque da Estiria. Filho de Maximiliano II da Áustria. Este foi um grande campeão da causa católica em 1619, conquistando a Boêmia e a Moravia e impondo o catolicismo como única crença permitida. Os tempos pareciam nebulosos. Mas nada começa da noite para o dia. A Guerra dos Trinta Anos(1618-1648) foi o último conflito religioso do continente europeu.

Este foi o cenário dos “Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas. Foi a guerra em que a França saiu como grande vitoriosa. A França do rei Luís XIII e o cardeal Richelieu. O cardeal que tinha mais olhos no trono francês do que na mitra papal. Sabia com quem estaria realmente o poder. A França sempre se gabou de ser o país mais laico da Europa. Desde os tempos de Filipe IV, quando sequestrou, aliado a família Colonna, papa Bonifácio VIII. O rei que acabou com a ordem dos templários para sequestrar seus tesouros, que fez o papado ficar em Avinhon, na França, por 70 anos. O rei que teve seus ossos queimados pelos revoltosos da Revolução Francesa, quando da tomada da Bastilha e outros castelos. A França que almejava se tornar uma república para ser mais livre, donde vem os conceitos de esquerda e direita hoje.

Mas, pensando bem, tem os povos mais sorte ganhando na loteria das urnas, como tiveram na dos cromossomos? As multidões não erram menos que a natureza. E a providência, de qualquer forma, é avara de grandeza.

Em que condições começou esse que foi considerado o primeiro conflito geral do continente europeu? Começou com pequenos conflitos de natureza religiosa,que naquela época também eram conflitos políticos. Cada principado ou reino que se tornava protestante, as terras do clero católico local eram confiscadas em nome do príncipe daquele reino, que fazia distribuí-las a outros nobres. Por causa disso, a cúria romana cobrava providências de seus reinos aliados, como a Espanha, o Sacro Império Romano Habsburgo, principados italianos e pequenos principados espalhados pela Europa. Assim nasceria o primeiro projeto expansionista católico, liderado por Fernando, duque da Estiria(território austríaco atual), educado por jesuítas. O perigo católico ameaçava tanto as potências protestantes do norte(Suécia, Noruega, Dinamarca e ducado de Brandemburgo) como a vizinha França. O conflito começou na Boêmia, território hoje ocupado pela república Tcheca e pela Eslováquia. Em 1608 os protestantes criaram a sua “Uniao Evangélica”. Em 1609 é criada a “Liga Católica”. Em 1612, Matias, já idoso, é eleito rei da Boemia e imperador do Sacro Império. Em 1617 os estados da Boemia designaram Fernando da Estiria sucessor de Matias, estando este ainda vivo. No ano seguinte, templos católicos foram fechados pelos “defensores da fé” protestantes no arcebispado de Praga. Isso fez acirrar os conflitos. Em 23 de maio de 1618 ocorreu o estopim da guerra. Nobres católicos foram atirados pela janela do castelo de Hradschin, o que ficou conhecido como defenestração de Praga.

Com a morte de Matias em 1619, Fernando II é eleito imperador em 18 de agosto, mas a Dieta imperial elege Frederico V, calvinista fanático, como imperador. A conturbação tomou conta da Europa central. A Polônia enviou tropas para devastar a Transilvânia, sob a suserania de Bethlen Gabor(este era sobrinho de Elizabeth Bathory, antiga Condessa húngara protestante, da qual muitas histórias seriam escritas), a Espanha atacou as províncias unidas(atual Holanda) e os Habsburgos de Viena vieram em favor dos católicos na Europa central. Com esse cenário aterrador, os protestantes tinham bons motivos para ter medo. Mas eis que vem o herói da causa protestante: Gustavo Adolfo, rei da Suécia. O famoso rei da neve! Patrocinado pela França, que apesar de católica financiava o lado protestante, pois queria ver a queda dos espanhóis e austríacos, o rei da neve foi conquistando território após território, até ser freado em 1632, na batalha de Lützen. Os suecos venceram, mas o imperador morreu em batalha. Dois anos depois, os suecos perderam para o exército imperial na batalha de Nördlingen. Nessa hora, entra em auxílio sueco aquela que até ali só era patrocinadora do lado protestante: A França! Era a França do cardeal Richelieu. Este que seria o vilão da saga dos três mosqueteiros. Que teria mais olhos na coroa de França, que na tiara do papa. Com a entrada do maior país europeu na guerra, ambos os lados estando desgastados, a liga protestante vence a guerra, impondo a paz de Vestfalia em 1648. A França continuaria sua guerra particular com a Espanha até 1659, quando houve a paz dos Pirineus.

A guerra produziu uma incrível baixa demográfica no império austríaco. Dos seus 20 milhões de habitantes no início do século XVII, só restaram 7 milhões. Esta marca só seria recuperada no final do século XVIII. Durante as partes inicias do tratado, os católicos se reuniram em Müster e os protestantes em Osnabrück. Os termos do tratado foram uma perda pesada para o campo católico. Foi estipulado que os feudos deveriam voltar às condições da batalha da Montanha Branca(1624), que deixou de fora as grandes conquistas católicas. O “edito de restituição” de 1629 foi suspenso. O papa não gostou disso, mas não teve outro jeito. Estava aberta uma nova era, onde pela primeira vez na História, a mediação papal não seria substituída por nenhum outro estado. Isso até aparecer a Liga das Nações e a ONU, ambas no século XX. Mas nunca mais a religião seria conciliadora de guerras. O que antes era “um Deus, um Cristo, uma fé”, como na idade média, agora era “um Deus, uma fé, uma Lei, um Rei”. A humanidade estava mudando. E a alavanca desta mudança era o ocidente. Hugo Grotius, aquele holandês protestante que viria a se tornar o pai do Direito Internacional, idealizou um mundo secular para a humanidade. Grotius escreveu o De juri Belli ac pacis(sobre o direito de guerra e de paz). Religião viria a se tornar algo cada vez mais doméstico. Gradativamente a religião deixou de ser um divisor de águas nas relações internacionais na Europa.

Ratificação do Tratado de Münster (1648), que inaugurou o moderno sistema internacional, ao acatar princípios como a soberania estatal e o Estado-nação.

LEOPOLDO GALTIERI - A MORTE DA GERENCIA MILITAR NA AMÉRICA LATINA

Capa da revista Veja de dezembro de 1981, relatando o golpe de Galtieri

Este ano de 2018 fez 15 anos da morte do general e ditador argentino Leopoldo Galtieri. Autor de um golpe militar, dentro de outro golpe militar, quando em dezembro de 1981 depôs o general Roberto Viola, que até então comandava a junta militar argentina. Naqueles tempos ocorria na Argentina o mesmo medo demente do comunismo que ocorria por aqui. E, como sempre, se tomavam decisões apressadas.

O General Leopoldo Fortunato Galtieri Castelli nasceu em Caseros, na região metropolitana de Buenos Aires, em 1926. Tinha ambições de se igualar a generais norte-americanos em batalha, como os heróis americanos da segunda guerra. Galtieri enfrentou várias resistências ao seu golpe. Pessoas marchavam pelas ruas pedindo sua renúncia. Ele não sabia como frear isso, afinal de contas um país precisa ter seu andamento normal para funcionar, porque militares não são tudo. Até que em 2 de abril de 1982 ele teve uma ideia insana: Invadir as ilhas Falklands, que seus compatriotas chamavam de ilhas Malvinas. Para isso tomou conselho com as piores entendedores possíveis em direito internacional. Nosso general Figueredo, pessoas de sua própria junta militar e até o tenente general norte-americano Vernon Walters, que disse que “os argentinos poderiam invadir, pois os ingleses iam bufar e bufar, mas não iriam reagir”, em suas próprias palavras para jornalistas brasileiros em um programa de TV da Rede Globo em Nova Iorque. Mas se enganaram. Margareth Thatcher era um osso duro de roer. Como Premier da Inglaterra, ordenou uma reação imediata. De princípio, parece que a Argentina mantinha bem as posses invadidas. Os EUA ficaram divididos, pois tinham seu parceiro da OTAN(e também do conselho de segurança da ONU), que era a Inglaterra. E tinham o seu 'quintal de atuação’, que era a América Latina, que agora tinham guerrilhas comunistas para combater. Por isso, de certo modo, o fato dos americanos terem ficado do lado da Inglaterra(após protestos da Thatcher), foi um duro golpe de confiança nos generais presidentes na América Latina para com o governo dos EUA.

A guerra das Malvinas teve momentos inusitados até para o Brasil, como a invasão do espaço aéreo brasileiro pelo Vulcan britânico armado com mísseis ar-ar Sidewinder. Foi forçado a pousar na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, e desarmado. Este evento eu lembro, pois sobrevoou a minha cabeça. Eu tinha 9 anos e morava próximo a base aérea onde meu pai servia no quartel da FAB. Um outro evento foi a captura do capitão da marinha argentina Alfredo Astiz. Conhecido como “anjo loiro da morte”, foi responsável pela tortura de mulheres e crianças acusadas de comunismo. Quando este foi capturado, tremia que nem vara verde, mas o coronel britânico que o capturou dizia:”É este que torturava mulheres e crianças? O gerente da tortura de Galtieri?” A especialidade de Astiz era se disfarçar para infiltrar em organizações de direitos humanos, para depois vir capturar todos. Pois é, mas um dia é da caça. Outro do caçador. Pois enquanto países como França e Suécia reclamavam a sua deportação para ser julgado em seus países, tribunais internacionais reclamavam que ele precisava ser julgado por seus crimes na Argentina de acordo com os princípios de Direitos Humanos. O Reino Unido buscava cumprir o acordo de Genebra de direitos humanos em caso de guerra e entregá-lo para um julgamento justo. Se recusava a entregar o capitão, com receio que o torturassem. Nessa hora, um órgão que ele tanto atacou, agora era responsável por proteger a sua pele. Hoje o capitão cumpre prisão perpétua na Argentina.

Quando a guerra acabou, após a queda de Fort Stanley, Galtieri foi acusado pela população de morte inútil dos jovens na guerra. As pessoas saíam gritando pelas ruas:”Galtieri, borracho, mataste a los muchachos”(Galtieri, seu bêbado, mataste nossos jovens). O general seria deposto do poder em junho do mesmo ano. Mas esse não seria o único golpe que os militares argentinos levariam. Os tribunais internacionais exigiam o julgamento deles. E ameaçavam a Argentina com sanções econômicas, caso não aceitassem. O presidente Raul Alfonsín aceitou. Os generais Rafael Videla, Roberto Viola e Leopoldo Galtieri seriam julgados. O promotor Júlio Strassera, uma espécie de “Deltan Dallagnol” da Argentina dos anos 80, se empenhava ao máximo. A ditadura militar argentina começou com o pretexto de botar ordem na casa, mas abriu as portas para ladrões de galinha, como casos de 'roubos de geladeiras e camas’, mas com recibo. Coisas cômicas como essas foram descobertas.

Após a morte de Galtieri, muitas entrevistas foram concedidas à imprensa. A mulher de Galtieri disse, em uma entrevista em 2007, que os ingleses forçaram a Argentina a invadir as Malvinas. Segundo Carlos Galtieri, filho do ex-presidente, caso os argentinos tivessem aceitado a coabitação das ilhas, oferecida pelos ingleses, não teriam direito de reclamar soberania sobre as mesmas depois. Disse que o pai nunca quis ser presidente. Era um militar, não um político. Mas aceitou porque sentiu ser sua responsabilidade.

Mas o general errou. E errou feio. Armou seus aviões com mísseis Exocet. Também até com mísseis de gás napalm. Mas suas tropas não tinham classe militar para usar isso. A América Latina é feito de países com jeito tosco. São sardinhas que parecem caviar. A Guerra das Malvinas foi a consequência dessa estupidez. E Galtieri foi a bola da vez. Nos anos 90, o presidente Carlos Menem liberou Galtieri de uma prisão em regime fechado por este já ser septuagenário. Ficou em prisão domiciliar. Nunca pôde sair da Argentina. Morreria de câncer no pâncreas em 12 de janeiro de 2003. Com ele morria a idéia estúpida de armar qualquer país da América Latina para ser cabeça do mundo. Esqueceram que o desenvolvimento intelectual vem antes do militar. Se os EUA, que sempre foram ponta, quase perdem a liderança para URSS e China, porque sua ciência começou a valorizar credos criacionistas, quem dirá nós, que nem base estudantil sólida tivemos. Se cresce um país como se constrói um prédio: De baixo para cima. Esta é a lição que tiramos disso.