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segunda-feira, 23 de março de 2020

De volta para o futuro: Os conflitos urbanos e rurais

O ser humano, principalmente o urbano, vem mostrando tendências bucólicas desde as escolas arcades de literatura. Desde a Revolução industrial. E eu nunca fui exceção. Desde criança sempre tive curiosidade da vida no interior. De pessoas simples, desprovidas de cultura e estudos. Como seria suas vidas? As crianças tinham as mesmas diversões? Tinham as mesmas curiosidades? Os adultos se portavam da mesma forma diante das conquistas da vida?

Tão logo eu fiquei entendendo de economia, eu percebi que para desenvolver uma cidade de interior, a mesma precisa de pessoas ricas, ou com uma condição financeira melhor. Isso para que gere renda no lugar. Mal sabia que logo eu experimentaria isso de perto.

Hoje faz 25 anos que eu saí da cidade grande para, o que seria na época, interior do estado do Rio de Janeiro. Neste dia 23 de março do ano de 1995, eu estava saindo daqui do bairro da Ilha do Governador para o distrito de Cabuçu, do município de Nova Iguaçu. Nunca havia morado fora da cidade maravilhosa. Eu e minha mãe fomos morar neste lugar. Nos receberam bem. Era gente simples. O que eu não pude prever é que na simplicidade estava embutida a matutice.

O povo do lugar era simples. Pouco entendia de matemática, geografia, história ou biologia. Faziam confusões e misturas em histórias bíblicas, inclusive. Defendiam a prática de grupos de extermínio(na época não existia milícias) como maneira eficaz de combater o narcotráfico que vinha da capital fluminense. Não havia muita diferença de pensamento entre pais e filhos. Pudera, o que estabelece essa diferença é a prática dos estudos.

Nessa terra eu tive dois relacionamentos amorosos traumáticos. Ambas as mulheres ficaram chocadas com meu jeito escandaloso. Mas gostei de ambas, embora tenha me apegado realmente com a última. Mas não tinha como. Pessoas começaram a cobrar de ambas, cada uma em sua época, de que namorar alguém bizarro feito eu poderia custar caro. No fundo talvez tenham razão. Eu tenho um jeito que não combina com ninguém. Possuo síndrome de asperger, fato só descoberto recentemente. A mesma síndrome que Isaac Newton possuía. Então talvez eu tenha fantasiado uma história de amor impossível entre um rapaz da cidade e um povo do interior.

Atualmente voltamos para o mesmo lugar de onde viemos há 25 anos atrás. Chegamos aqui tem duas semanas. Só agora vi o quanto aguentei uma situação que nem aceitaria negociar meu jeito de ser. A pior fase ocorreu em 2001, onde fui acusado na igreja de ser portador de HIV. Onde uma menina que gostava de mim foi embora na mesma semana para Niterói, onde nunca mais tornei a vê-la. Essa foi a história mais traumática que me aconteceu na baixada fluminense.

Uma das primeiras notícias que soube em Cabuçu foi de uma sucuri que invadiu uma casa e engoliu uma criança, ocorrendo próximo ao campo do Beira Rio. Eram situações bizarras. Mas eu também me mostrei mais bizarro que este lugar poderia aguentar. Perdi esses dois relacionamentos, e ate alguns prováveis, devido a isso. Perdi varias amizades também.

Assim que cheguei naquele lugar, eu comecei a dar aulas, profissão de professor que sempre tive. E conheci várias pessoas nesse processo. Algumas amizades que mantenho até hoje. Mas não era a mesma coisa que na Ilha. Não eram amizades em que se podia confiar. Não tinham mentes para suportar o que eu era. Naquele momento eu sabia que não ia durar para sempre.

De repente, eu comecei a me sentir vomitado. Principalmente no meu ultimo relacionamento. Comecei a usar meus conhecimentos para me defender. Fui chamado de arrogante. Viraram um povo que não penso em dialogar nunca mais. Disseram que eu tinha que baixar a cabeça para os conselhos deles, sem revidar. Que o meu revide demonstrava arrogância. Isso tudo passou a ocorrer a partir de 2010. Mas nessa epoca aconteceu algo que mudaria a minha história para sempre.

Em julho de 2010 eu descobri na Internet, que já usava desde 2007, aquela que viria a ser a minha primeira rede social na vida: O Bolsa de Mulher! Quando me cadastrei, eu nem sabia tratar-se de uma rede social. Mas ali descobri o jeito tanto progressista, como liberal, de muitas futuras amigas minhas. Vi que o conservadorismo, que já segui no passado, não valeria mais a pena. Vi que um novo mundo despontava para mim. Uma amiga minha, que conheci através desse site, inclusive contou parte da minha história em sua dissertação de mestrado.

Cinco anos se passaram, sendo daí revelado a mim o evangelho dos anabatistas. Tentei aplicar naquele lugar. Mas foi em vão. É um povo que vive cercado pelo medo. Medo de muitas coisas: Desacatar lideres religiosos, policiais, lideres do povo do lugar, etc. É um povo que obedece pelo medo de ser amaldiçoado. E creem piamente nisso! Mulheres têm cisma que qualquer desvio de comportamento as torna prostitutas. E isso nem vale para os homens, na mente matuta delas. Depois disso eu percebi que minha estadia naquele lugar havia chegado ao fim.

Hoje estou de volta ao futuro da cidade grande. Não é a melhor das opções, mas é a única que me tolera. Houve problemas naquela época quando eu ainda morava aqui. Mas, além de ser anos 90, nem chegava perto do que passei na baixada fluminense. Isso ocorre porque sou filhote da cidade grande. Sou herdeiro dos arranha-céus. Ate devo passar meus últimos dias de vida num interior muito mais roceiro que Cabuçu. Mas daí estarei sozinho e saber aplicar os princípios da minha frase, que criei em 2010: NENHUMA UNIÃO VALE O PREÇO DA MINHA LIBERDADE!!!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A ORIGEM DOS CONFLITOS: DARWIN, 160 ANOS DEPOIS

"A visão desta floresta tropical, assim como da variedade de fauna e flora, faria qualquer naturalista beijar o pó dos pés de um brasileiro."Charles Darwin, ao comentar a fauna e a flora da mata atlântica

Há 160 atrás era escrito a maior obra científica da área biológica na história humana: A Origem das Espécies, de Charles Darwin! Um livro que mudou o curso da História, balançou o curso da história do cristianismo, até mesmo mudando o eixo da moral familiar do ocidente, segundo o entendimento de alguns. Os seres humanos não descendem do macaco. Darwin nunca disse isso. Esses entendimentos tortos muitas vezes vem de desenhos feitos, não baseados na realidade, como do macaco que vai 'crescendo' até transformar-se num homem, do desenhista alemão Johann Brandstetter. Desenho este, que o próprio Darwin nunca viu. O naturalista afirmou que miríades de espécies de seres vivos na terra são resultados de repetidas ramificações de uma ancestralidade comum. Aquilo que viriamos a conhecer com o nome de evolução. Termo este que sequer é encontrado no livro. E o mecanismo pelo qual isso funciona é o que o teólogo(e naturalista por Hobby) Charles Darwin chamou de seleção natural.

Uma das confusões muito frequentes que se faz com a seleção natural e a origem das espécies é sobre ser uma teoria. Na linguagem comum seria "algo que não pode ser provado". E não é assim. Teoria, pelo Discurso do Método de René Descartes, é estabelecido como algo que se sobrepõe às leis. Teoria é algo que suplanta o senso comum. Não é "algo não provado", como se supõe. Esse entendimento ajudou a quebrar vários falsos entendimentos no desenrolar das descobertas do naturalista. Não só da Teoria da Evolução, mas também da Teoria da Relatividade de Einstein. Ambas até hoje pouco entendidas. E há de se acrescentar que houve outra Relatividade. A de Galileu Galilei, que não era muito generalizada, mas rústica devido aos séculos em que foi desenvolvida. Mas o método científico ainda não era do conhecimento de muitos fora do mundo acadêmico.

Muitos que não são cientistas, concordam na prática com eles, ao assistirem TV, ao tomarem antibióticos ou usando um calendário que foi criado com base na medição da órbita da terra. Então por que cismam com várias Teorias que já as sustentam na prática. Essa inimizade entre Deus e a ciência sempre existiu? Essa e outras respostas aparecerão no decorrer do texto.

Desde meados do século XVIII começaram a aparecer vários questionamentos entre os naturalistas. Coisas como por que mamíferos machos possuem mamilos? Ou por que certos besouros que são incapazes de voar possuem asas que nunca se abrem? Neste contexto, além do naturalista sueco Carl Von Linneu, surgiu o francês Jean Batist Lamarck. Este último estabeleceu uma ancestralidade comum entre vários seres vivos, utilizando um mecanismo de uso e desuso. Mas isso não levava em conta o processo evolutivo dos vegetais, além de possuir brechas de falhas em suas hipóteses. Havia também o livro de Zoonomia de Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin. Este não passava de uma junção de ideias especulativas, chamadas na época de transmutação. Estava claro que peças ainda faltariam neste quebra cabeça.

No século XIX já havia muitos naturalistas com estudos nessa área, contra ou a favor da transmutação. Havia o paleontólogo inglês Richard Owen, o maior especialista em macacos no início do século XIX. A ele devemos o nome dinossauros. Mas este era contra a transmutação. A descoberta de símios antropomorfos nessa época gerava um medo iconoclasta das consequências da aproximação entre tais animais e o ser humano.

Mas houve outros anteriores, ainda do final do século XVIII. Como Lamarck ou o reverendo Thomas Malthus, que fez tratados sobre a matemática da população humana(e ajudaria muito na descoberta da seleção natural) ou do geólogo Charles Lyell, autor de Principios de Geologia. Ou mesmo do teólogo naturalista William Paley, que foi responsável pela divulgação do que 200 anos depois ficaria conhecido como design inteligent. E esse medo do naturalista das descobertas da transmutação nem se deve ao fato de ser teólogo pois, além de Paley, o próprio Charles Darwin também era teólogo. Aliás, esta era sua única formação acadêmica. Paley desenvolveu a ideia de Deus como sendo "o grande relojoeiro". E este teria criado cada coisa minuciosamente. E não através de um processo transmutacional. E é por causa disso que ateus militantes fanáticos como Richard Dawkins escreveram livros como O relojoeiro cego, para confrontar os escritos do naturalista inglês do século XVIII. É uma guerra insana, que será tratada calmamente neste texto.

Tratando agora da geologia, como tema base originário para a seleção natural, convém demonstrar de onde saíram muitas das ideias de Darwin. No final do século XVIII, um filho de ferreiro inglês chamado William Smith seria o precursor do que viria a ser o primeiro mapa geologico do mundo. Como construtor de canais pôde descobrir que as rochas estavam arrumadas em camadas. E mais que isso, que os fósseis encontrados em uma camada eram muito diferentes dos fósseis das outras. Este mapa foi publicado em 1815, onde ainda não foi aceito na época. Havia ainda muita resistência. Enfrentando vários problemas familiares e resistências sociais, Smith ficou vagando pelo norte da Inglaterra até ser reconhecido em 1831 pela Sociedade Geológica de Londres e receber uma pensão vitalícia do rei Guilherme IV.

Essa descoberta foi possível devido a um fato peculiar. As ilhas britanicas, de forma única no mundo, conseguem exigir rochas de quase todas as épocas geologicas individuais. Desde a pré-Cambriana e a Cambriana(de 1 bilhão a 570 milhões de anos atrás) até o pleistoceno(cerca de 1,6 milhões de anos atrás). Por isso, talvez, a geologia ter nascido no Reino Unido.

Mas foram os ingleses seus únicos desbravadores? Claro que não! Houve pessoas até de outras áreas que colaboraram com isso. Quando, na virada do século XX, o geofísico e meteorologista alemão Alfred Lothar Wegener foi taxado de aventureiro e irresponsável, ninguém ainda havia experimentado a sensação de que vivemos em balsas vulcânicas e que a terra não é fixa, mas que são placas de terra que se movem. Isso também veio a acrescentar às descobertas geologicas. Muitos não sabem, mas o continente da América do Norte pode ser mais nômade que a maioria dos seus habitantes.

Em se tratando da comprovação da Teoria, como cobram muitos, isso passa pela Teoria moderna da Evolução. E essa linha passa pela genética. Charles Darwin não tinha conhecimento de genética na época de suas anotações. Pudera, as descobertas de Gregor Mendel ele nem levou em conta. O que importava as descobertas botânicas de um monge austríaco perto do maior naturalista britânico? Então ele desconhecia certos detalhes que só foram elucidados após a sua morte. Mas, com a descoberta do raio X do DNA por Francis Crick e James Watson, em 1952, mudaria e muito o cenário. Muitos detalhes genéticos a partir de Mendel foram aproveitados por cientistas como Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr, George Gaylord Simpson e George Ledyard Stebbins. Estes foram os principais pais da chamada Teoria Sintética da Evolução. Esta tirava como base a mutação gênica, recombinação gênica e a seleção natural. As duas primeiras desconhecidas por Darwin. Dentro desses dois estão princípios e leis como o Princípio de Hardy-Weinberg, que tem como fórmula a equação P² + 2PQ + Q² = 1. Este principio trata da genética das populações, sendo P e Q ambos os gametas feminino e masculino, usados como base para a seleção natural. Este principio também é usado para monitorar reprodução de bactérias.

E dentro da Teoria sintética são reconhecidos três tipos de seleção natural: Estabilizadora(favorece fenótipos intermediários), direcional(favorece fenótipos extremos) e disruptiva(favorece os extremos e diminui os intermediários). E além disso existem as adaptações, que não se confunde com a evolução. Um caso de adaptação é quando pessoas vão viver em altitudes elevadas e tem sua configuração sanguínea mudada por isso. Mas a evolução muda os genes. Assim como ocorrem com as bactérias, que muitas mudam as espécies. Para ver essa mudança de espécie numa espécie maior, é preciso haver um período longo de tempo. Pois mudança de espécie é algo que demanda esforço. Quanto maior a espécie, pior. Ainda assim, um gorila chamado Ambam ganhou um comportamento peculiar entre os gorilas: Passou a andar como bípede, totalmente. E foi uma condição transmitida por três gerações. Isso foi um refinamento da seleção natural.

Mas seria o darwinismo realmente uma Teoria anti Deus? Se sim, ou não, quando foi que essa história surgiu? Antes de mais nada é interessante lembrar que o livro A Origem das Espécies começa e termina enaltecendo a Deus. Naquela época de 1859 ainda não havia o "Darwin agnóstico" que viria depois. Ateu então, nunca foi. Confusões como as discussões entre o bispo Wilberforce, de Oxford, e o naturalista Thomas Huxley(chamado buldogue de Darwin e criador do agnosticismo como linha metafísica) só fizeram parte do início das publicações de Darwin. No final do século XIX, tanto no Reino Unido, como nos EUA, não havia dúvidas sobre a veracidade da seleção natural.

A guerra entre o darwinismo e o cristianismo começou somente nos anos 20 do século XX, ou seja, cerca de 60 anos depois da publicação da primeira obra de Darwin. E iniciou no mesmo lugar em que esta batalha está até hoje, no cinturão bíblico norte americano. Ali, advogados e políticos como William Jennings Bryan, processaram o professor de Biologia John Scopes por ensinar evolucionismo em escolas de Dayton, no estado do Tenneesse(EUA), em 1925. Isso ficou conhecido como O Julgamento do Macaco. Bryan fazia parte de uma onda religiosa de direita recém nascida nessa parte dos EUA. Mas poucos sabem que ele era comunista. É isso mesmo! Bryan era um militante de direita socialista. Ele tinha medo do chamado Darwinismo Social. Achava que essa corrente iria acabar com a moral cristã no país. O professor Scopes perdeu o processo, teve que pagar uma multa de cem dólares, e foi proibido de ensinar evolução das espécies. O advogado de defesa de Scopes, Clarence Darrow, advertiu as consequências graves que aquela derrota causaria para a ciência do país. Isso além do fato do estado ser um dos poucos a ter uma lei dessa proibição no país. Esse processo atrasou a ciência nos EUA até os anos 60, quando o país revogou essa insanidade, por causa do atraso que esse atraso científico causava na corrida espacial. A famosa guerra nas estrelas, em disputa com a antiga URSS.

Com todos os erros de William Bryan, uma coisa ele não era. Tolo, ao ponto de imaginar que os seis dias da criação do genesis fossem literais. Ele não acreditava na ilusão do bispo irlandês James Ussher do século XVII, de que a terra teria um pouco mais de seis mil anos. Ninguém acreditava nisso no início do século XX, fossem criacionistas ou evolucionistas. Bryan cria naquilo que chamamos de criacionismo da terra antiga.

Essa ideia, hoje muito divulgada, de terra recente, só seria ressuscitada nos anos 60. Um livro chamado O Dilúvio do Genesis, escrito em 1961 pelo engenheiro hidráulico Henry Morris e o pregador John Whitcomb, da Igreja dos Irmãos, tratava que a bíblia deveria ser totalmente entendida de forma literal. Em dois mil anos de cristianismo era a primeira vez que a igreja cometia essa estupidez. Ali nasceram ideais como o Museu da Criação, em Petersburh, Kentuck(EUA). Um histórico apologético, ao estilo das covardias de Tomas de Aquino, que colocava na ciência um uso de comprovar a bíblia. Fato nunca antes visto na história da cristandade. Fato que faria o próprio Agostinho de Hipona, assim como o apóstolo Paulo, se revirar no túmulo.

No ano de 2005 houve mais uma das batalhas contra o ensino de Evolução das Espécies nas escolas norte americanas. Desde o 'Julgamento do Macaco' em 1925 que tentam retirar a Evolução do ensino das escolas, tendo tal ensino retornado após a década de 60. O ensino da evolução nunca foi incompatível com a fé cristã. E recentemente veio com um disfarce de DESIGN INTELIGENT. Isto nasceu no livro 'Of pandas and people', publicado em 1989. Veio como um criacionismo disfarçado de evolucionismo.

Atualmente, por causa do BILL OF RIGHTS(primeira emenda da Constituição dos EUA), que remete a separação entre Igreja e Estado, ficou praticamente impossível de retirar o ensino da evolução das escolas. O "Bill of Rights" diz que "O Congresso dos EUA não criará leis em relação ao estabelecimento da religião ou proibindo o livre exercício dela, ou cerceando a liberdade de opinião ou da imprensa;ou o direito das pessoas se reunirem de forma pacífica e de requererem ao governo a reparação de injustiças." Baseado nessa emenda, os criacionistas colocaram a proposta de ensinar ambas as coisas, criacionismo e evolucionismo, já que não poderiam mais proibir este último. O problema é que justamente nessa emenda que o Excelentíssimo juiz John Edward Jones, da Pensilvânia, se baseou para tornar o ensino criacionista inconstitucional em 2005, no chamado 'julgamento de Dover'. A emenda garante separação, e também que o estado não mais ensinará religião. Então, se fosse comprovado do design inteligente ser religião,estaria fora. E foi o que aconteceu. O interessante é que esse juiz é republicano, luterano, presidia o controle de bebidas alcoólicas do estado da Pensilvânia(EUA). Inclusive, ele proibiu a cerveja Bad Frog, devido a propaganda de um sapo fazendo gesto obsceno. E em 2014 também invalidou uma proibição de casamento gay no estado, permitindo aos gays de se casarem, por considerar que a proibição invalidava a décima quarta emenda constitucional. Apesar de republicano, protestante, de linha liberal econômica, ele tomava decisões de ambos os lados.

Em 2008, o Juiz John Jones recebeu o prêmio de Liberdade Religiosa da Associação Humanista Americana, devido a alguns processos julgados. Os recentes movimentos de 'escola sem partido' não visam somente criar uma 'muralha anti-comunista', mas criar uma espécie de estado com leis cristãs. Isso não só é imbecil, como é sem futuro. A moral da História é que a Deus nunca agradou essa história de tentar usar a moral judaico-cristã para moldar as leis e princípios desse mundo. Quem fizer tal estupidez, que responda e colha por isso. Evolução e criação são ideias complementares, não excludentes.

O livro A Origem das Espécies nunca foi um tratado ateísta, como muito se divulga. Essa obra inicia e termina louvando a Deus. Perto do fim da vida Darwin declarou:Para mim, parece absurdo duvidar que o homem possa ser um cristão fervoroso e um evolucionista. Este um lado de sua vida que poucos conhecem. Darwin faleceu como agnostico, não ateu.

"Não vejo razão alguma para que as opiniões desenvolvidas neste volume firam o sentimento religioso de quem quer que seja. Basta, além disso, para mostrar quanto estas espécies de impressões são passageiras, lembrar que a maior descoberta que o homem tem feito, a lei da atração universal, foi também atacada por Leibnitz, 'como subversiva da religião natural, e, nestas condições, da religião revelada'. Um eclesiástico célebre escrevia-me um dia, 'que tinha acabado por compreender que acreditar na criação de algumas formas capazes de se desenvolver por si mesmas noutras formas necessárias, é ter uma concepção bem mais elevada de Deus, do que acreditar que houvesse necessidade de novos atos de criação para preencher as lacunas causadas pela ação das leis estabelecidas'."

Charles Darwin, A Origem das Espécies

A Trilha de um herói na região do Prata

Heróis! Como o cedro augusto

Campeia rijo e vetusto

Dos séculos ao perpassar,

Vós sois os cedros da História,

A cuja sombra de glória

Vai-se o Brasil abrigar.

(Castro Alves)

Quem foi este herói que os versos do poeta baiano foram usados para enaltecer? Era o marechal Manuel Luis Osório, herói da Guerra do Paraguai ao lado de personagens como Duque de Caxias. Mas quem era o marechal Osório? Aquele que ficou conhecido como Marquês de Herval? Quem foi este herói que em 2019 fez 140 anos de morto?

De origem gaúcha, Osório nasceu no dia 10 de maio de 1808, no município de Conceição do Arroio, atual município de Osório, na estância de seus avós maternos, no estado do Rio Grande do Sul, antiga capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. Filho de Ana Joaquina Luisa Osório e Manuel Luis da Silva Borges, sendo este um simples furriel do exército(posto que equivaleria a um sargento do exército). Seu sobrenome estar atrelado ao lado materno se deriva, assim como de seus irmãos, de que a riqueza e o nome da família estarem ligados na parte materna. Participou de várias batalhas, como batalha do Prata, Guerra do Paraguai, Revolução Farroupilha e batalha da Cisplatina. Aos 14 anos já conhecia natação, a equitação e a dança. Montava qualquer animal bravio, fosse encilhado ou em pelo. Por diversão, tirava-lhe o freio depois de montado, fazendo-o disparar vertiginosamente. Presta muita atenção às narrativas de guerras que seu pai lhe faz.

Feito soldado da legião de São Paulo, onde não tarda a conhecer os riscos da guerra. Um mês depois era selecionado para as tropas que sitiam Montevideo(não esquecendo que esse país chamado Uruguai ainda não existia, mas era a chamada Província Cisplatina, de posse do Brasil). Ali tem contato com a artilharia inimiga, o que seria seu batismo de fogo.

Em 1824, um ano e meio após seu voluntariado, era nomeado cadete e depois alferes, servindo na primeira linha do exército, sob as ordens do coronel José Tomás da Silva. Assim que foi promovido a alferes pôde se transferir para a corte do Rio de Janeiro, capital imperial. Tendo oportunidade de estudar, coisas que os trabalhos da estância gaúcha e o exército não lho permitiam.

Em 12 de outubro de 1827 é promovido a 1° tenente, para o 5° regimento de cavalaria. Tem 19 anos, dos quais 4 foram com vários encontros e duas batalhas.

É chegado o ano de 1834, onde Osório, ainda tenente, assume a revolução ao lado de Bento Gonçalves. Isso se deve, também, a covardia de seu comandante de linha, capitão Mazzarredo. Abraça a causa Farroupilha, tanto que o novo governador colocado pelos rebeldes, Araújo Ribeiro, se dirija também a Osório. Mas o novo governador era um tolo irreconciliável. As batalhas recomeçam.

Quando descobre que seu filho tomou parte na revolução, e que boa parte dela quer a república, seu pai diz que lutará contra ele. Os dias eram tensos. Muitos revoltosos queriam somente suas pautas atendidas. Não queriam o fim do império. Nesse ponto, Osório não era diferente. Disse que estaria ao lado do pai. Batalhas, golpes e contra golpes se arrastam até 1845, onde em 25 de fevereiro é assinado a paz do Poncho Verde. Paz esta que teria traições aos farrapos mais tarde. Mas Osório foi delegado de paz,ao lado de Luis Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias.

Em 1852, após a rendição de Oribe no Uruguai, trata-se o Brasil de se por frente ao ditador Manuel Rosas, na Argentina. Osório, nesta época já um tenente-Coronel, se pôs em direção da Batalha de Monte Caseros. O regimento de Osório se coloca na divisão brasileira, comandada por Marques de Sousa. Com um efetivo de 28.000 homens, sob o comando de Urquiza, tendo como chefes principais o general brasileiro Marques de Sousa, os argentinos La Madrid e o Bartolomeu Mitre e o Coronel uruguaio César Dias, este a frente de 2000 homens. Depois este exército entra em Buenos Aires e Urquiza se instala no poder. Mas sempre a região do Prata foi essa tensão. Osorio foi designado para São Borja e esperaria até o maior conflito da América do Sul: A Guerra do Paraguai!

No início da guerra do Paraguai o Brasil praticamente não tinha exército. Havia a Guarda Nacional, mais dedicada ao policiamento interno. Os homens recrutados para as batalhas vinham dos empregados das fazendas, assim como alguns poucos da Guarda Nacional. O exército brasileiro formou-se na e para a Guerra do Paraguai. A sua maioria era composta, na realidade, de escravos. Os senhores então começaram a sentir sua mão de obra ir embora, daí pararam de mandar escravos. Faltou soldados. Foi aí que surgiram os Voluntários da Pátria,uma ideia falsa que apareceu com intuito de catar homens roceiros pelo mato, para lutar na guerra. Este quadro não se sustentou por muito tempo, pois os homens que chegavam eram fracos e doentes. Muitos morreram mais de doenças, que de guerra. Na retirada da Laguna, de acordo com o Visconde de Taunay, morreram muitos de cólera. Muitos oficiais, entre os quais Osório e o próprio Caxias, eram contra essas práticas. Mas o combate do Paraguai e a guerra particular contra Francisco Solano Lopez tinha outro destino. E este estava nas mãos nobres estúpidos como Gastão D’Orleaes, o Conde D’Eu. Este último que caberia ao selar do fim do Paraguai.

Osório tomou parte nas principais batalhas da região do rio Prata, que envolvia o sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Como sempre, havia casos de roubos de gado na fronteira gaúcha, tendo resultado nisso a revolução farroupilha, do qual Osório foi um excelente mediador, ao lado do então general Luis Alves de Lima e Silva, mais tarde conhecido como Duque de Caxias.

O velho general viria a morrer 10 anos antes do fim do império. Não veria o fim daquilo que ele e o pai dele lutaram para manter. Mas não tinha jeito. As guerras que eles participaram semearam isso.

Assim, no dia 4 de Outubro de 1879, vinha a falecer aquele que tinha sido um dos maiores heróis das batalhas do sul do Brasil. Uma torrente humana corre para a antiga casa da Rua do Riachuelo n°117 para se despedir do velho guerreiro. Sua estátua foi inaugurada em 12 de novembro de 1894, por Floriano Peixoto e em redor dela estavam os representantes dos povos do Prata. O Uruguai mandava gravar em bronze estas palavras - Campeão da Liberdade Sul Americana. Ainda existe o quadro de Pedro Américo: A Batalha do Avaí , que faz sua glorificação de guerreiro. Francisco Braga põe em música um hino que Leôncio Correia compusera e numerosos poetas vibram suas liras:

Caiu na arena o arcanjo da batalha

Mas não prericlitou sua memória

Envolvida nas dobras da mortalha

--- Que amortalhou seu corpo ungido em glória!

Três vezes zombara da metralha

Os laureis conquistando da vitória

Que esta pátria não tem lenda que valha

Uma página só da sua história!...

E é por isso que o povo brasileiro,

No próprio coração tem majestoso

Altar de culto pelo seu guerreiro.

O marechal gaúcho, temerário

--- O grande vulto do herói glorioso

Apelidado ---- Osório ---- o legendário!

Batalha do Avaí, General Osório. Quadro de Pedro Américo

domingo, 11 de agosto de 2019

A IGREJA PODE ACEITAR A TUTELA DO ESTADO E TENTAR MOLDAR AS LEIS DESTE?

Nem uma coisa, nem outra. Mas ocorre que desde Justino de Roma(100 - 165d.C.); conhecido como Justino, o Mártir, que se tenta, imbecilmente, moldar o estado em leis cristãs, ou mesmo convertê-lo. Mas isso dá certo? Até certo ponto, sim. Pois a sociedade fica mais sadia. Mas, como a Palavra de Deus não foi feita pra isso, depois vai tudo para o ralo.

Agostinho de Hipona(354-430d.C.), ao escrever "A cidade de Deus", tentava dar um conforto divino ao império romano. Conforta-los pelo saque visigodo em 410. Sorte dele não ter visto esse mesmo império devastado pelos vândalos. Sem falar nos hunos e nos heruclos. Como Agostinho morreu antes, não viu a cidade de Hipona, sua cidade natal, devastada pelos vândalos. Com respeito a Roma, os vândalos cercaram a cidade. A coisa foi tão feia que o mesmo papa Leão I veio pedir por clemência. Tanto fez que conseguiu uma promessa de moderação vândala. O bispo de Roma resolveu então, em sinal de boa fé, deixar os portões de sua amada cidade aberta aos bárbaros. Doce ilusão! Genserico, rei deles, resolveu ensinar ao mundo o verdadeiro significado da palavra vândalo. Os saques deixaram zerados os tesouros dos templos. A "Cidade de Deus" de Agostinho era agora consumida nas cinzas.

Outro desses casos de má gestão foi a Cruzada de Varna(1444). O rei Wladislau III da Hungria e da Polônia havia feito um tratado de paz com o sultão Murad II. Mas o cardeal Júlio Cesarini disse que "palavra dada a infiéis não vale". A consequência foi uma batalha, onde ao término dela os janizaros exibiam a cabeça do rei húngaro numa lança e o tratado de paz na outra. Chamavam o rei de perjuro. E depois sua cabeça foi levada para a corte otomana; o resto da cavalaria polaca foi destruída pelo exército otomano. E o cardeal? Foi morto por tropas húngaras, onde na cabeça deles a guerra era culpa dele. Saldo do dia: Milhares de cruzados mortos e outros escravizados. Também vários turcos. Em seu retorno, o chefe do exército húngaro, João Corvino, líder dos cavaleiros brancos da Hungria, tentou desesperadamente salvar o corpo de Wladislau III, mas a única coisa que pode fazer foi organizar a retirada do que sobrou de seu exército. Ele sofreu milhares de casualidades e seu exército foi completamente aniquilado. Muitos prisioneiros europeus foram assassinados ou vendidos como escravos. E tudo por quê? Porque algum trouxa, que obviamente já deveria estar ardendo no inferno àquela altura, disse que Deus compra as batalhas da igreja na terra.

Outro situação foi a ousadia estúpida do papa Gregorio VII, que era o cardeal Hildebrando, em relação a monarquia germânica da Europa Central da alta idade média. A cena que se passa é no Castelo de Canossa, na região da Toscana, Itália Setentrional. Final do século XI. O papa Gregorio VII se recusa a receber o imperador Henrique IV, do Sacro Império. O imperador Henrique IV fez vários decretos mundanos para os bispos alemães. E o papa queria interromper isso. E o imperador estava disposto a morrer congelado para receber o perdão do sumo pontificie. Este recebe-o muito tempo depois. O imperador se ajoelha e beija o anel papal. Vitória, ao menos temporária, do papa. Porém, cerca de quatro anos depois, o imperador invade Roma e faz o papa morrer no exílio. Não há derrotas salutares, mas há vitórias infelizes. Poucas vitórias custariam caro à uma "igreja militante do mundo secular" como o conflito em Canossa. Pois fez surgir duas ideias falsas, a saber:

1°) Que Deus tomaria partido de sua Igreja em um conflito com o mundo secular.

2°) Que poder temporal, sendo cristão, deveria ser submisso ao poder eclesiastico.

A deposição do papa Bonifácio VIII, mais de 200 anos depois, seria a consequência dessa ilusão....

TEORIA DA EVOLUÇÃO NÃO PODERIA SER PROVADA POR SER TEORIA?

Não. Isso é linguagem chula do povo em geral. Quem já estudou metodologia científica sabe disso. A Teoria da Evolução de Darwin não tinha esse nome quando foi criada. Isso só passou a ser chamado assim nos EUA do século XX, quando surgiu o famoso termo, hoje conhecido como 'fundamentalismo', que falava de uma terra de 6.000 anos de idade. E quem já leu o livro A ORIGEM DAS ESPÉCIES, de Charles Darwin, sabe que lá não existe esse termo 'evolução', nem o livro trata da espécie humana.

Mas essa 'idade da terra' só apareceu quando? Só no meio do século XX, como consequência da briga de 1925 no chamado 'julgamento do macaco'. William Jennings Bryan, o criacionista fundamentalista que foi contra o prof Scopes, era um comunista do partido democrata, que também acreditava que o capitalismo era 'obra do diabo'. Provavelmente o era por causa do 'darwinismo social'. O darwinismo social parecia, aos olhos dos cristãos interioranos norte-americanos, uma coisa terrivelmente ameaçadora. Porém nenhum dos criacionistas do inicio do século XX cria numa terra de 6.000 anos. Ninguém sério cria nisso. Fossem evolucionistas ou criacionistas. A guerra entre criacionistas e evolucionistas não se deu na Inglaterra vitoriana do século XIX. Se deu no chamado 'cinturão bíblico norte-americano', que aliás é onde essa briga insana está até hoje. Esse povo só precisa parar de tentar provar que Deus existe. O homem é que gosta de apologética. Deus não. Há fundamentalistas para todos os lados.

Esse termo "fundamentalismo" foram os criacionistas norte-americanos do século XX que criaram. Mas tinha uma diferença: Até a chegada dos primeiros fundamentalistas, nem criacionistas, nem evolucionistas, acreditavam numa terra de 6000 anos de idade. Ninguém era estúpido a esse ponto. Não há passagem biblica dizendo a idade da terra. A biblia não foi escrita pra isso.

Por fim, a definição de TEORIA, de acordo com a METODOLOGIA CIENTÍFICA, não é "algo que não possa ser provado". Essa definição de 'algo não provado' chama-se HIPÓTESE!!! TEORIA é uma nomenclatura(ou seja, dá nome) a um conjunto de leis, todas comprovadas. Então não existe comprovação de teoria, mas comprovação das leis que compõe aquela teoria. Mas Teoria não significa isso que esse povão fala. Onde aprendi isso? Na faculdade? Não! Quando cheguei na graduação eu já sabia disso, através de autodidática estudando em casa. Então, se analisar corretamente, a prática do homeschooling(estudar em casa) nem estaria incorreta. Incorreto está o medo desse povo de estudar certas coisas, de ter uma mente que mais parece cavalo, pois usa cabresto e freio, do contrário não obedecem, como diz a bíblia(Sl 32:9).

terça-feira, 6 de agosto de 2019

O castelo do terror

Esta é a fortaleza da Conciergerie, às margens do rio Sena, em Paris na França. Um castelo construído ainda nos tempos dos reis merovíngios, já servindo a inúmeros propósitos. Desde sede do conselho real, nos tempos do rei Hugo Capeto(941-996), passando a ser prisão estatal nos tempos do rei Carlos VI(1368-1422), até virar Palácio da Justiça e prisão do terror nos tempos da Revolução Francesa. Sua prisão era úmida, infestada de ratos, era conhecida como antecâmara da morte.

Nesta fortaleza, em 29 de julho de 1794, portanto há 225 anos atrás, era silenciada a voz da jovem nação francesa. Era preparado Maximilian Robespierre para ser decapitado na guilhotina. O terror que o líder da esquerda francesa inspirara no país agora se voltaria contra ele. Os girondinos, a direita francesa, se aproveitavam do terror da esquerda para tomar o poder. Mas, como começaram a tomar medidas impopulares a partir dali, resolveram pedir ajuda a um capitão do exército que era jacobino. Este capitão era um herói no exército pelas vitórias conquistadas frente aos austríacos. Logo esse capitão chegaria a general. Os girondinos tiveram ele como ideal da França. Um militante da esquerda agora era o pulso firme que a direita usaria para controlar a própria esquerda.

Porém essa liberdade que a direita usufruiu não demoraria muito. Assim, em 9 de novembro de 1799, esse general daria o famoso "Golpe 18 Brumário" e se tornaria Consul vitalício na França. Mais cinco anos e ele se auto coroava imperador dos franceses. Seu nome era Napoleão Bonaparte. Parece com algumas histórias conhecidas? Pois é. Um dia é da caça, outro do caçador.

LIBERTÉ, EGALITÉ, FRATERNITÉ!!!

sexta-feira, 26 de julho de 2019

BHASKARA NÃO USAVA FÓRMULAS

Todos os estudantes de matemática, a partir do 9º ano do ensino fundamental, já tiveram experiência com raízes de equações do 2º grau, ou até mesmo com funções quadráticas, no sentido mais geral do termo.

O número de raízes de uma equação é nada mais, nada menos, que o número de respostas da equação que satisfazem as sentenças como verdadeiras. Ou seja, raízes de uma equação são os elementos do conjunto verdade dessa equação. Portanto, uma equação vai ter tantas raízes quantas forem o grau dessa equação. Na matéria de números e polinômios complexos(hoje banida do ensino médio, só se leciona no ensino superior) se aprende também que o número de respostas de uma raiz equivale ao índice dessa raiz, sejam suas respostas reais ou complexas. Assim a raiz quadrada possui duas respostas; a raiz cúbica possui três; a raiz quarta, quatro, etc.

Com respeito as equações do 2º grau, usa-se a chamada “fórmula de Bhaskara” para dar a resolução e achar suas raízes. Acontece que a tal fórmula nada tem a ver, absolutamente, com o matemático indiano. Aliás, em sua época, a álgebra nem estava desenvolvida para isso. Bhaskara resolvia equações quadráticas, mas ele o fazia preenchendo quadradinhos, não usando a fórmula que usamos o seu nome. Desta fórmula, que só nasceria bem mais tarde, Bhaskara nunca ouviu falar.

O nome de Bhaskara relacionado a esta fórmula, aparentemente, só ocorre no Brasil. Não encontramos esta referência na literatura internacional. Em nenhum outro lugar do mundo existe a chamada “fórmula de Bhaskara”, atribuida ao indiano. A nomenclatura "fórmula de Bhaskara" não é adequada, pois problemas que recaem numa equação do segundo grau já apareciam quase quatro mil anos antes, em textos escritos pelos babilônios, nas tábuas cuneiformes. Nesses textos o que se tinha era uma receita, escrita em prosa, sem uso de símbolos matemáticos, que ensinava como proceder para determinar as raízes em exemplos concretos, quase sempre ligados a relações geométricas.

No Brasil, por volta de 1960, o nome de Bhaskara passou a designar a fórmula de resolução da equação do 2º grau que conhecemos. Não se vê essa nomenclatura em outros países, mesmo porque não foi ele quem a descobriu. Historicamente existem registros da existência dessa resolução a cerca de 4000 anos atrás, em textos escritos pelos babilônios. Naquela época não existia a simbologia utilizada hoje, ou seja, não havia a fórmula atual, mas sim uma espécie de "receita" de como proceder para encontrar as raízes da equação quadrática. Na Grécia (500 a.C.) também já se conhecia a resolução de algumas equações e era feito de forma geométrica. O método empregado por Bhaskara nas resoluções das equações quadráticas é do matemático indiano Sridhara (870-930 d.C.) e reconhecido pelo próprio Bhaskara. A fórmula para extrair essas raízes veio com um matemático francês, François Viète(1540-1603), que foi quem procurou dar um tratamento mais formal e algébrico para obter uma fórmula geral.

Bhaskaracharya foi um dos mais importantes matemáticos do século XII, graças aos seus avanços em álgebra, no estudo de equações e na compreensão do sistema numérico - avanços esses que os matemáticos europeus levariam séculos ainda para atingir. Suas coleções mais conhecidas são: Lilavati que trata de aritmética; Bijaganita que discorre sobre álgebra e contém vários problemas sobre equações lineares e quadráticas com soluções feitas em prosa, progressões aritméticas e geométricas, radicais, ternas pitagóricas entre outros tópicos; Siddhantasiromani, dividido em duas partes: uma sobre matemática astronômica e outra sobre a esfera.

Bhaskara, que nasceu em 1114 na cidade de Vijayapura, na Índia, também era conhecido como Bhaskaracharya . Ele não deve ser confundido com um outro matemático indiano, também chamado Bhaskara, que viveu no século VII. Naquela época, na Índia, os ensinamentos eram passados de pai para filho. Havia muitas famílias de excelentes matemáticos. O pai de Bhaskaracharya era astrônomo e, como era de se esperar, ensinou-lhe Matemática e Astronomia. Bhaskaracharya tornou-se chefe do observatório astronômico de Ujjain - na época, o centro mais importante de Matemática, além de ser uma excelente escola de matemática astronômica, criada pelos grandes matemáticos que ali trabalharam.

Mais tarde, esse entendimento quadrático seria usado pelos advogados, e pais da Geometria Analítica, Renè Descartes(1596-1650) e Pierre Fermat(1601-1665). O próprio entendimento algébrico sobre as cônicas advém disso. Ao revirar a coleção matemática de Pappus de Alexandria, Fermat acabou instituindo o princípio fundamental da Geometria Analítica, onde diz que sempre quando uma equação tiver duas variáveis, os pontos que a satisfazem formam uma curva.

Bhaskara obteve grande reconhecimento pelas suas importantes contribuições para a Matemática. Em 1207, uma instituição educacional foi criada para estudar o seu trabalho. Em uma inscrição medieval, num templo indiano, podemos ler: “Triunfante é o ilustre Bhaskaracharya, cujos feitos são reverenciados tanto pelos sábios, quanto pelos instruídos. Um poeta dotado de fama e mérito religioso. Ele é como a crista de um pavão".