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segunda-feira, 24 de maio de 2021

ÀS MARGENS DA GUANABARA: AS ORIGENS DO POVO FLUMINENSE

Este ano faz 60 anos da montagem do brasão da Ilha do Governador, além de 40 anos de sua ascensão como distrito do Rio de Janeiro. E ano que vem a Ilha fará 455 anos de História. Uma história que se mistura às disputas luso-francesas no litoral sul brasileiro. Uma história que se mistura com as lutas entre católicos e protestantes na França. Uma história que foi palco das disputas entre perós(portugueses) e mairs(franceses) pela posse do Rio de Janeiro.

A fundação da Ilha do Governador passa indiretamente, ou mesmo diretamente, pelas fundações do município de Niterói e do Rio de Janeiro. O combate à pirataria no nosso litoral sul passou a ser preocupação constante da coroa portuguesa após João III iniciar a colonização do Brasil em 1532, com os chamados Governos Gerais. A cidade do Rio de Janeiro recebeu essa nome por muitos imaginarem se tratar realmente de um rio na entrada da Baía da Guanabara.

A Baía de Guanabara foi descoberta por Gaspar de Lemos em 1502, dado um nome Guanabara, ou braço do mar, na língua Tupi. Ali seria entrada e saída, tanto de colonos portugueses, como de piratas franceses e, mais tarde, ingleses e flamengos, que competiriam com a coroa portuguesa, já decadente.

Na segunda metade do século XVI a França passava pela disputa de poder católica e protestante, onde o chefe dos protestantes,o almirante Gaspar de Colligny, pressionava o rei Henrique II da França por uma expedição nas terras portuguesas na América. E este nomeou o vice-almirante Nicolau Durant de Villegagnon para ir ao Brasil, mesmo sem muito apoio, devido às rixas religiosas.

Mas não era só a coroa francesa que estava com problemas. Em 1580 morria o último rei português da dinastia de Avis, o cardeal D. Henrique.Este era substituto do rei infeliz D. Sebastião,que havia desaparecido nas desastrosas cruzadas portuguesas na África dois anos antes, na desastrosa batalha de Alcácer-Quibir. Mas agora havia um pretendente ao trono: O rei Felipe II da Espanha. Um católico fervoroso e irrascível, não disposto a negociar com quaisquer religiões ou crenças,fossem judaicas, islâmicas ou protestantes.Isso trouxe ao Brasil uma guerra cultural até então aqui desconhecida:A inquisição ibérica!O Brasil de Felipe II seria um país que faria vários judeus não terem mais sobrenome, ao adotarem sobrenomes de plantas(Oliveira, Silveira,Pereira,etc), como novos nomes de judeus 'convertidos', os chamados marranos,como eram conhecidos. Finalmente houve acordo entre nobres portugueses e o novo rei. E assim, Portugal passava a ser uma só coroa com a Espanha. Então quaisquer colônias portuguesas passariam ao domínio espanhol, inclusive o Brasil. Assim foi feito o acordo nas Cortes de Tomar em 16 de abril de 1581,onde felipe II tornar-se-ia o próximo rei de Portugal e, também, do Brasil. Esse quadro permaneceria pelos próximos 60 anos, até a revolução que levaria ao poder a dinastia de Bragança.

Um detalhe curioso é preciso entender nisso tudo: Não existia, como hoje, esse senso de "donos da terra". O próprio rei Francisco I da França, que era pai de Henrique II, havia perguntado aos reis de Portugal e Espanha se Adão e Eva havia passado algum testamento de donos da terra aos reis luso-espanhois. Obviamente se referia ao tratado de Tordesilhas, estipulado em 1494 entre as potências ibéricas. Mas o século XVI não reconhecia posses nacionais ou fronteiras. Apenas posses de terras pessoais.

Então, na segunda metade do século XVI, partia a expedição francesa em direção ao Rio de Janeiro. Comandada pelo vice-almirante Nicolau Durant de Villegagnon, que era cavaleiro de Malta, católico, mas muito devoto da causa protestante na França e amigo pessoal de Gaspar de Colligny, essa expedição procurava formar uma colônia ecumênica no Rio de Janeiro. Claro, esse termo, ou mesmo a ideia, nem existia na época. Mas se aproximava bastante disso. Tanto que veio para a colônia francesa o pastor francês Jean de Lery, autor do livro Viagem à terra do Brasil, que retrata a primeira colônia protestante em solo brasileiro.Mas não foi somente ele. Em 1549 um alemão chamado Hans Staden esteve no litoral paulista em um 1º contato com povos indígenas locais. Provavelmente o francês desconhecia essa viagem anterior ao litoral brasileiro. As notícias não corriam como hoje em dia. E assim os franceses estabeleceram sua colônia, chamada França Antártica, construindo o forte Colligny, na entrada da baía, na atual ilha de Villegagnon.

Enquanto isso, os conflitos luso-franceses permaneciam na entrada da Baía da Guanabara. Assim, em 20 de janeiro de 1565, o sobrinho do governador Mem de Sá, Estácio de Sá, funda a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, entre os morros da urca e Pão de Açúcar. Portugueses começavam a fundar seus domínios na Baía da Guanabara.

Mas nem tudo são flores. Os franceses se aliaram aos tamoios contra os portugueses. Houve uma batalha onde Estácio de Sá foi ferido com uma flecha envenenada, vindo a falecer, na praia da Guanabara(atual praia da Freguesia,Ilha do Governador). O governador Mem de Sá mandou tropas no dia seguinte para vingar seu sobrinho, ocorrendo a chamada Paliçada da Ilha de Paranapuã, onde os portugueses expulsaram os índios temiminós da Ilha, indo eles se estabelecer em Niterói, tendo Araribóia como seu fundador. A Ilha do Governador recebeu esse nome em 5 de setembro de 1567, quando teve sua terra doada pelo governador Mem de Sá ao seu outro sobrinho Salvador Correia de Sá. Este foi governador da capitania geral do Rio de Janeiro de 1568 até 1572. Por isso tem esta data e a imagem dele no brasão da Ilha. Assim, da derrota francesa surgiriam os municipios do Rio de Janeiro, Niterói e o distrito da Ilha do Governador.

Antes desta época, a Ilha fora conhecida pelo nome de Ilha de Paranapuã pelos temiminós, que em tupi significa "colina do mar". Era conhecida como Ilha dos maracajás pelos portugueses, devido a abundância de um determinado gato selvagem na Ilha(por isso a pedra da onça, no bairro da Freguesia). E era conhecida por Ilhabela pelos franceses. Também foi na Ilha do governador que foi lançado ao mar o navio Galeão Padre Eterno, em 1663, na época o maior navio do mundo. Foi construído no bairro do Galeão atual, na entrada da Ilha.

Hoje a Ilha é um distrito do Rio de Janeiro, tendo vários bairros. Esse status de bairro para distrito foi modificado pelo decreto municipal n° 3157 de julho de 1981. Daí para frente a Ilha passou a ser a XX região administrativa do Rio de Janeiro. Agora está subdivida em vários bairros, onde um deles, o Jardim Guanabara, se tornou o 3° lugar em IDH entre os bairros do Rio de Janeiro, perdendo apenas para Gávea e Leblon.

O brasão da Ilha do governador foi criado recentemente, em 1961. Uma estrela de prata, que originalmente estava no alto do brasão, era indicação da condição de distrito federal que o Rio de Janeiro possuía até a transferência para Brasília. Com a perda do status de "estado da Guanabara" em 1975 pelo Rio de Janeiro, o brasão perdeu sua estrela. O arco e flecha simboliza a ocupação primária da Ilha pelos povos tupis. Abaixo, a esquerda, tem-se o governador Salvador de Sá. No alto, à direita, está a capela imperial nossa senhora Conceição, que se localiza no Jardim Guanabara. E embaixo estão misturados os simbolos da Aeronáutica e Marinha, simbolizando a ocupação militar da Ilha. As cores vermelhas no brasão simbolizam o sangue dos portugueses derramado em prol da expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Como tudo que existe na heráldica, existe a simbologia da guerra embutida.

Referências Biliográficas

1.AGUIAR, Luiz Antonio. HANS STADEN:Viagens e Aventuras no Brasil..Editora Melhoramentos. São Paulo, 1992
2.A Restauração e o Império Colonial Português.Comissão Executiva dos Centenários.Lisboa, 1940.
3. LÉRY,Jean de. Viagem à terra do Brasil.Livraria Itatiaia Editora.São Paulo, 1980.
4.OLIVIERI,Antonio Carlos.A França Antártica.Coleção:O Cotidiano da História.Editora Ática.São Paulo,1994.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Donald Trump, você está demitido!

Ontem deixou o mandato de presidente dos EUA o megaempresario Donald John Trump. Um magnata do mundo dos jogos de Nova Iorque, e até de outras partes dos EUA, que até se acusou de ter esquemas de prostituição. Também era conhecido por inaugurar o programa "O aprendiz", em que ensinava jovens a se virar no mundo dos negócios. No meu entender, muitas vezes baseado na mentira. Mas também se tornou representante da direita conservadora norte americana, assim como do mundo inteiro.

Trump invocou para si a causa não só econômica, mas a causa da direita protestante conservadora, que tem seus pés nas origens protestantes inglesas puritanas do século XVII, os quais foram os fundadores dos EUA.

Mas ele foi traído. Traído por uma geração que não quer mais isso. Não só nos EUA, mas no mundo. Foram 80 milhões de votos que o magnata lunático acusou de fraude. E tudo por ser pelo correio, devido a um decreto que ele mesmo instituiu. E esses votos vieram de uma juventude transviada, mas consciente, que daqui para frente elegerá todos os representantes do planeta terra. A causa dele, como está sendo usada como "causa cristã", não possui respaldo bíblico algum. Pelo contrário, nenhum dos apóstolos de Cristo dos séculos I e II teria feito guerra cultural ao invés de guerra espiritual.

Donald Trump perdeu as eleições para o ex-senador democrata Joe Biden, que é acusado por lunáticos do mundo inteiro de ser predecessor do anticristo. De grupos fanáticos como QAnon. É a guerra cultural religiosa que os EUA sempre foram o único país do mundo a adotar. Uma coisa completamente sem sentido.

Parabéns Joe Biden! Por aqui só existe aquilo que chamam de "ódio do bem", que prega que todo comunista é inimigo, não dá para manter diálogo. Ou seja, só se pode dialogar com parceiros ideológicos. Coisa completamente demente. Mas existe ódio do bem ou do mal? Não. Só existe guerra cultural, o que é uma estupidez. Essa lição fica pra nós aqui. Um exemplo é que não se pode reclamar do "ódio do bem" em relação a Jair Bolsonaro, por exemplo, quando você vive desejando a morte de Xi Jinping ou Joe Biden.

Mas Donald Trump perdeu. E perdeu feio! Perdeu a reeleição, perdeu a maioria no senado, o comando da Câmara, os julgamentos da suprema corte(por juízes que ele mesmo escolheu), perdeu o respeito do povo americano, perdeu a dignidade, FIM

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A cidade proibida: O renascimento do Dragão

"Um império pode ser conquistado a cavalo, mas não governado a cavalo."Ye Liu Shut'sai , filósofo chinês da corte de Ogodei, Khan dos mongóis

Um leão chinês guarda a entrada da Cidade Proibida, Pequim.

Este ano fez 600 anos da inauguração da Cidade Imperial proibida, a cidade de Pequim, agora capital imperial, inaugurada pela Dinastia Ming(1368-1644). Dinastia esta que concluiu a maior parte da grande muralha da China, iniciada ainda no século VII a.C., antes da unificação da China, sendo sempre completada através dos séculos.

A cidade proibida da China está localizada num recinto murado no centro da cidade imperial de Pequim. A residência do imperador, feita de prédios de madeira vermelha e amarela cercados de terraços, escadas e balaustradas de marmore branco, contrasta com o meio natural.A maior porta do Palácio é a do meio-dia, composta de um grande saguão central e quatro pavilhões. Mais para o norte está o pavilhão, através do qual se ingressa no Palácio do céu, residência privada do imperador. As habitações exclusivamente imperiais estavam ao lado oeste do Palácio, bem como os pavilhões para a Imperatriz e a concubina imperial. Um dos aspectos particulares da arquitetura chinesa eram as contrucoes com terraços em diferentes níveis. Na cidade proibida também encontram-se também os retângulos concêntricos da proibição: uma ordem arquitetônica onde tudo é defesa de outra defesa e cada elemento é o parapeito do seguinte, terminando num centro com a cidade proibida de aproximadamente 720 mil metros quadrados, onde foram construídas 9.999 habitações. No coração da cidade proibida, cercado por 72 pilares adornados com dragões enrodilhados, está o trono de ouro do imperador, onde só ele tinha acesso. A construção foi declarada patrimônio mundial da humanidade, pela UNESCO, em 1987. Sua construção foi concluída em 1420, completando agora 600 anos.

A grande muralha da China, sendo muito aumentada pelos Ming, que vários escritores ocidentais chegaram a afirmar(sem absolutamente nenhuma prova), que poderia ser vista da lua, começou a ser erguida provavelmente para evitar invasões da China por tribos bárbaras tártaro-mongóis vindas do norte, como das tribos dos Hsiung Nu, que eram bem conhecidas da dinastia Han. Mas essas construções, antes da unificação do império Chinês, eram ainda muito rudimentares.

A grande muralha era uma obra, originalmente, projetada para defesa militar. Sua construção começou no século VII a.C. por setores. Mas, com o advento da dinastia Qin, e o imperador Qin Shi Huang, considerado 1° imperador de uma China unificada, reformas aumentaram seu tamanho, ligando as partes separadas anteriormente. Ela se tornou, em 10 anos, uma única muralha defensiva.

Hoje a muralha estende-se de oeste a leste, tendo mais de vinte mil quilômetros de comprimento. E foi na dinastia Ming que ela aumentou cerca de dezoito vezes, em relação ao passado. Com obras de extensão de 1368 a 1600.

A noção de que a parede pode ser vista da lua, (385.000 km) é um mito bem conhecido, mas implausível. Talvez isso venha de uma questão mais controversa. Se a muralha é visível da órbita baixa da Terra (uma altitude de apenas 160 km). A NASA afirma que é quase invisível e apenas em condições quase perfeitas; não é mais notável do que muitos outros objetos feitos pelo homem.

Uma das primeiras referências conhecidas ao mito de que a Grande Muralha pode ser vista da lua aparece em uma carta escrita em 1754 pelo antiquário inglês William Stukeley . Stukeley escreveu que, "Esta poderosa parede(a muralha de Adriano), de 130 km de comprimento, só é excedida pela Muralha da China, que representa uma figura considerável no globo terrestre, e que pode ser discernida na Lua". A afirmação também foi mencionada por Henry Norman em 1895, onde ele afirma que "além de sua idade, goza da reputação de ser a única obra de mãos humanas no globo visível da Lua." Como se pode ver, nenhuma lenda surge do nada.

Grande muralha da China

A China anterior a dinastia Ming tinha sofrido muito com o jugo estrangeiro, da dinastia Yuan, que era mongol. Era a China sob o domínio de imperadores autoritários e ignorantes, em relação aos chineses, como Kublai Khan. Mas um dia os poderosos mongóis foram contestados. A reação começou do sul do país, muitas vezes saqueado para suprir o norte.

Foi neste sul da China subjugado que nasceu Zhu Yuanzhang, o que mais tarde seria o líder libertador da China, o primeiro imperador Ming, o imperador Hongwu. Curioso que o nome Zhu significa vermelho. Ele começou como homem simples. Camponês, monge, soldado, general e, finalmente, imperador. Teve apoio do povo, quando se sublevou contra o último governante mongol. Em setembro Zhu marchou contra Pequim, com uma bandeira com inscrições douradas que dizia o céu nos ordenou unificar a China. Em dezembro de 1367, os revoltosos chegaram às portas de Pequim. Então Toghan Temur, o último líder mongol, fugiu. Isso tudo ocorreu porque os governantes mongóis exploravam os camponeses além do limite, em período de catástrofes naturais. Para a revolta eclodir, bastou surgir um líder.

Imperador Hongwu, chamado Zhu Yuanzhang

A ascensão do império Ming trouxe uma era de glórias para a China, como nunca houve. Embelezou Pequim, tornando-a capital imperial. Construiu nela a Cidade Proibida Imperial, que seria o esplendor da China até o dia de Hoje. Aperfeiçoou o mecanismo de concursos públicos(sim, os concursos surgiram na China em cerca de 2300 a.C.), que teve na era Ming seu quadro melhor arquitetado, com provas físicas, escritas e indo até a nossa atual "prova de títulos", com as particulares da época. Todas essas inovações em concursos públicos são criações chinesas, sendo esta última exclusiva criação da era Ming. O imperador Hongwu também criou o Código dos Grandes Ming, que era uma espécie de cadastro social tributário. Tudo na China Ming era organizado.

Os Ming foram uma dinastia que se fechou para o mundo, em termos do contato entre povos, mas preservaram seu renome de navegantes desde a dinastia Song(960-1279). Mas com a queda da dinastia, para os mongóis, a China paralisou sua cultura navegante. É bom lembrar que a bússola é invenção chinesa, não árabe ou ocidental. Nasceu na dinastia Han(202 a.C. - 220 d.C.), com objetivos místicos. E passou a ser usado na navegação na era Song. E seu uso europeu e islâmico data do final do século XII. Mas foram os Ming que trouxeram a sua glória, com o comandante e navegador islâmico Zheng He, eunuco da corte dos Ming. Era amigo pessoal do imperador Hongwu, desde que foi capturado com 10 anos de idade, na batalha entre chineses e mongóis, próximo a Nanquim. Este navegador que trouxe uma "descoberta da América", setenta anos antes de Colombo. Segundo o historiador inglês Gavin Menzies, que revelou essas descobertas das viagens chinesas em 2002, Zheng He teria circundado o mundo, quase um século antes de Fernão de Magalhães. Como certo, já se sabe que os chineses exploravam o Oceano Indico a partir de 1405, conquistando a costa africana na mesma época que os portugueses. Só que, enquanto estes estavam ao norte, aqueles estavam ao leste.

A dinastia Ming deixou seu legado. Construiu uma nova China, desenvolveu a navegação junto com os portugueses, patrocinou Zheng He como uma espécie de infante Dom Henrique chinês, e fez da Pequim sua capital do império. Uma cidade agora representada na cidade proibida, em que até a dinastia Qing(1644-1911) a tornaria residência imperial até a queda do Império chinês, sendo mesmo utilizada pela China comunista. Seu legado de 600 anos de uma Pequim imperial atravessou os séculos, do século XV até os dias atuais. Desde a queda de Puyi, o último imperador filho do céu em 1912, que virou jardineiro no governo de Mao Tse Tung, até o investimento de uma China mais capitalista de molde estatal, do que puramente socialista, na segunda década do século XXI. Esta é a China de 4000 anos de história, que se orgulha do seu legado, quando em 2020 faz viagens ao espaço trazendo rochas do solo lunar...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1)Atlas da História Universal, The Times, O Globo. Patrocínio:CCBB. 2001.

2)Hessler, Peter. À sombra do Muro. Revista National Geographic Brasil. Editora Abril. Janeiro 2003.

3)Catinot-Crost, Laurence. Zhu:Camponês, monge, general e imperador. Revista História Viva-Grandes Temas:China, o retorno do Dragão. Nº34. Editora Duetto.2013.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Um príncipe nos mares. O senhor dos escravos...

"Hoje em meu sangue a América se nutre.
--- Condor, que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão.
Ela juntou-se às mais...irmã traidora!
Qual de José os vis irmãos, outrora,
Venderam seu irmão!

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dous mil anos eu soluço um grito…
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!"

Castro Alves, Vozes d'África. Os escravos.

"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando
--- Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte."

Camões, Os Lusíadas. Canto I

O que tem em comum entre os lamentos do poeta baiano do século XIX, e os cantos heróicos do poeta português do século XVI? O nascimento do capitalismo comercial, dos grandes mares do mundo. E também de seu filho mais sofrido: A escravidão dos povos africanos! E neste texto é tratado de seu primeiro gerador e o contexto histórico que o envolve: D. Henrique, o príncipe de Portugal, e patrono das expedições portuguesas nas viagens marítimas pela costa africana.

Para esclarecer: Sempre houve escravidão no mundo, seja por guerras ou dívidas. Houve até escravidão de europeus da península ibérica, por povos africanos islâmicos. Mas nenhuma escravidão de povos foi similar à escravidão negra, pois esta tinha a ver com o lucro do nascente capitalismo. E isso era uma novidade no século XV. Ao menos, de maneira plena.

E esse começo não seria possível sem a ousadia de um homem: Dom Henrique de Avis, 1° Duque de Viseu. Título este criado por seu pai, o rei D. João I, de Portugal. Nós o conhecemos como infante D. Henrique, patrono da lendária Escola de Sagres, que seria uma espécie de escola de navegação portuguesa(de existência provavelmente lendária), que preparou navegantes portugueses que partissem para a conquista da África, Ásia e, mais tarde, América. Um homem de visão, mas que muitas vezes se tornou um mercantilista mercenário, que também tinha um ideário medieval sobre as cruzadas, uma ideia de guerra santa contra os norte-africanos islâmicos, para conduzi-los à bandeira da fé cristã. Por isso fez a conquista de Ceuta, em 1415, tomar ares de uma cruzada. Assim como chegou a ser ordenado para a Ordem de Cristo portuguesa em 1420, fazendo esse ano seis séculos de sua ordenação.

A escravidão moderna teve um novo começo, bem diferente da antiga e a medieval que a precederam. Começou na manhã de 8 de agosto de 1444, quando um carregamento de 235 africanos desembarcou no porto de Lagos, em Portugal. Foram trazidos daquilo que hoje é o Senegal, em porões insalubres dos navios portugueses. Um rudimentar mercado escravista foi improvisado nas docas, separando os negros por sexo, idade ou estado de saúde. Assim, pais e filhos, maridos e esposas, foram separados.

O infante D. Henrique, como patrocinador da viagem, se manteve impassível. Pegou o que era seu por direito, a quinta parte, ou seja, 46 escravos. Seguiu em seu cavalo, aclamado pelo povo português. Estes escravos serviram em Portugal, mas os próximos iriam longe, para América, para suprir o potencial humano necessário a uma unidade socioeconômica específica, a Fazenda. Unidade esta que fora desconhecida no velho mundo. O tráfico de ouro negro havia começado.

O espírito cruzado de D. Henrique justificava a escravidão de povos negros, principalmente islâmicos, dizendo que, ao comprar escravos de povos islâmicos, ele os estava privando de material humano, então logo uma cruzada portuguesa contra os infiéis iria se abrir.

E, de fato, Portugal iria tentar abrir futuras cruzadas no continente africano. Como, no início do século XV, Portugal era uma das nações mais pobres da Europa, viu na conquista africana uma otima oportunidade de enriquecer e cumprir os "desígnios de Deus" nas aventuras em terras até então desconhecidas.

Porém a primeira tentativa de encontrar ouro no interior da África foi frustrada para D. Henrique. Ao procurar manter contato com o lendário Preste João(uma espécie de rei lendário, de um reino que parecia um reino cristão copta da Etiópia), que poderia lhe auxiliar contra os reinos islâmicos, pois este rei(dizia a lenda) teria posse de muito ouro, não deu certo. Henrique teve que empreender sua cavalaria contra tribos do senegambia, onde foram atingidos por dardos envenenados, e moscas tsé-tsés aniquilaram-lhes os cavalos. Então, em 1448, Henrique deu ordem para que suas tropas não atacassem, salvo em defesa própria. Costuma-se esquecer que o 1° embate entre uma tribo africana e uma potência europeia, estes últimos foram completamente aniquilados.

O infante D. Henrique cresceu em um país que tinha uma rara obstinação em se manter independente. Tudo começou com o conde de Portucale, Henrique de Borgonha(1066-1112). Este era o 4° filho do Duque da Borgonha, sendo também herói da batalha de Toledo(1085) e futuro genro do rei Afonso VI de Leão e Castela, casando com D. Teresa, filha bastarda do rei. Quando Henrique morreu, em 1112, era muito pouco provável que um dia seu condado se tornasse um reino.

Mas este conde teria D. Afonso Henriques(1109? - 1185) como filho. Este príncipe separaria o condado portocalense do Reino de Leão, gerando o reino de Portugal, após a batalha de S. Mamede, em 1128, contra a própria mãe, que era castelhana, além de vencer os mouros na Batalha de Ouriques, em 1139, travada em local desconhecido até hoje. O reconhecimento da independência de Portugal só veio em 1179, mediante a bula Manifestis probatum, pelo papa Alexandre III.

Depois, já no fim do século XIV, ocorreu outro fato inesperado. Com a morte do infeliz rei D. Fernando, em 1383, sendo sua única filha D. Beatriz casada com o rei D. João I de Castela, e sua viúva D. Leonor Teles adepta da causa castelhana para o trono português, a ruptura da dinastia de Borgonha parecia certa. Burgueses apoiaram o meio irmão do rei, D. João, que era mestre da Ordem de Avis, ao trono de Portugal. A decisão veio na Batalha de Aljubarrota em 1385, com a vitória dos portugueses.

Assim nascia a dinastia de Avis, que duraria cerca de 200 anos, até o final do século XVI. E foi o nascimento do esplendor de Portugal. Com personagens como o infante D. Henrique, e também navegadores como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão e Gaspar de Lemos.

Toda essa glória de navegação, incluindo as empreitadas de D. Henrique, começou com a Ordem de Cristo, para a qual o infante foi ordenado em 1420, agora completando 600 anos. A Ordem de Cristo foi criada após a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários no Concílio de Viena, presidido pelo papa Clemente V, em 1311.

Após a extinção da Ordem, o papa pressiona o rei D. Dinis, de Portugal, a cumprir a extinção em seu país. O rei português nega. Ao invés disso, firma um acordo com o Fernando IV, rei de Castela, para que ambos protejam as posses templárias em seus respectivos reinos.

Os procuradores portugueses apresentaram ao papa João XXII a proposta de fundar, no castelo de Algarve, uma nova ordem monástico militar. O papa consentiu. Pouco depois, a Ordem do Templo transferiu-se para Tomar. O papa denominou-a Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo Gil Marques ocupado a posição de Grão-mestre. Assim, D. Dinis resolvia o problema do controle sobre a Ordem do Templo. A Ordem de Cristo recebeu da coroa portuguesa todos os bens da Ordem do Templo, a vila de Castro Marim, e a maior parte dos ex-freires do Templo.

Assim se deu a nacionalização portuguesa dos bens da Ordem do Templo. E isto foi usado na afirmação portuguesa em sua identidade nacional. Quando as galeras portuguesas cruzaram os mares, desbravando a costa africana, como descreveu Luís Vaz de Camões, traziam estampada a antiga cruz templária, agora símbolo da Ordem de Cristo.

O apelido de Henrique, o Navegador, não existiria no período de vida de Henrique, mas foi criado por dois historiadores alemães do século XIX, Heinrich Schaefer e Gustave de Veer. Isso se deve, sem dúvida, ao desempenho de suas aventuras nos mares. Sua conquista de Ceuta, auxiliado por D. Pedro de Meneses, se destacou por suas conquistas além mar.

Este príncipe valente, que era primo do rei Henrique V, da Inglaterra(o herói da batalha de Agincourt), trouxe grandes glórias à memória do reino. Ficou do lado de seu sobrinho Afonso, contra seu irmão e tutor do príncipe, príncipe D. Pedro. Mostrou ao reino a grande vantagem de desbravar os mares.

Porém o príncipe também deixou desastres, como o legado da escravidão negra internacional, além de derrotas na Batalha de Tanger em 1437, em que ele insistiu muito em ir, pois alegava divisão no reino marroquino. O conselho de nobres do rei D. Duarte(irmão mais velho de Henrique, que agora ocupava o trono) foi contra, mas ele estava irredutível. Ainda obteve um "aval de guerra santa" do papa Eugênio IV, naquela época metido em concílios católicos belicosos, que procuravam livrar a Europa dos turcos. Henrique foi para batalha no norte da África, mas algo deu errado. A campanha revelou-se um desastre e, para evitar a chacina total dos portugueses, estabeleceu-se uma rendição pela qual as forças portuguesas se retiram, deixando o infante D. Fernando(irmão caçula de Henrique) como penhor da devolução de Ceuta (conquistada pelos portugueses em 1415). No entanto, o infante parece ter pressentido o seu destino, pois ao despedir-se do seu irmão D. Henrique, lhe teria dito "Rogai por mim a El-Rei, que é a última vez que nos veremos!" Fernando morreria na prisão marroquina em 1443. Isso desprestigiou um pouco D. Henrique, mas não retirou o cerne da sua glória lusitana.

Seu legado foram as conquistas de Açores, Madeira e Cabo Verde, além do contorno do Cabo Bojador por Gil Eanes, em 1434. Sua transformação para Portugal foi impressionante. Sua sepultura está no mosteiro da Batalha, que foi erguido como gratidão por agradecimento pelos portugueses terem ganho a batalha de Aljubarrota dos castelhanos. E realmente a vida desse príncipe foi uma vitória. Ele não era o mais velho dos filhos. Não foi feito para ser rei, mas para desbravar os mares, e encher de glórias as páginas dos Lusíadas de Luís Vaz de Camões, para os cantos das navegações da era de ouro lusitana, a dinastia de Avis. Como bem disse o poeta português:

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!"

Fernando Pessoa

Referências bibliográficas:

1)Os grandes da história: Infante D. Henrique. Editora Verbo: Lisboa/São Paulo. Diretor: Enzo Orlandi. Texto: Elaine Sanceau. 1976.

2)Costa, Ricardo da. A Ordem de Cristo, sucessora dos templários. Revista História Viva. Ano V. n° 59. Editora Duetto. 2014.

3)Michelin, Kátia Brasilino. O Atlântico começa em Ceuta. Revista História da Biblioteca Nacional. Ano X. n°119. Editora: Sociedade Amigos da Biblioteca Nacional. 2015

4)Pagden, Anthony. POVOS E IMPÉRIOS: Uma história de migrações e conquistas, da Grécia até a atualidade. Coleção: História Essencial. Tradutora: Marta Miranda O'Shea. Editora Objetiva. 2002.

sábado, 26 de dezembro de 2020

QUATRO SÉCULOS DE TEOCRACIA PURITANA: A FUNDAÇÃO DOS EUA

Puritanos desembarcando na colônia de Massachussetts. Quadro de Antonio Gisbert, 1864.

Quase sempre quando pensamos no início da história norte-americana, pensamos na descoberta da América em 1492, pelos espanhóis com Cristóvão Colombo. Mas não foi assim. Na realidade, os EUA são mais recentes que isso. As treze colônias da América do norte são frutos da imigração de protestantes ingleses, os chamados puritanos, para a terra a qual chamaram de "Nova Canaã"(em comparação com a 'terra prometida' de Israel da idade antiga), mais tarde de Nova Inglaterra.

O marco tido por início da história das treze colônias norte-americanas foi a viagem do navio peregrino do Mayflower, da Inglaterra. Este navio partiu no outono de 1620 para a Nova Inglaterra, chegando no inverno do mesmo ano. Ele carregaria o sonho dos cristãos puritanos em ter sua nova terra, para desfrutar de sua fé em paz.

Porém as incursões inglesas na América do norte podem ter iniciado bem antes. O memorável príncipe galês Owen Madoc teria atravessado o Atlântico até a atual Geórgia no final do século XII. Pelo menos era o que alegava um propagandista inglês na corte da rainha Elizabeth I, no final do século XVI. Oficialmente foi o navegador Walter Raleigh quem primeiro estabeleceu uma colônia na atual Carolina do Norte, chamando de Virgínia, em 1584, 1585 e 1587. Dando este nome em homenagem à rainha virgem, que era sua soberana Elizabeth I. É claro que houve tentativas frustradas como de Giovanni Gaboto, em 1497, ou Humpherey Gilbert, em 1578.

Todas essas incursões inglesas acabavam por irritar a Espanha de Felipe II, que não tardou a ameaçar o reino inglês em 1588, com a chamada invencível armada. Frota esta que foi destruída por um maremoto e também por corsários ingleses. Mas as incursões inglesas continuavam, apesar dos protestos espanhóis e também do rei Jaime I aceitar decapitar Walter Raleigh como demonstração de tratado de paz, exigido pela Espanha.

O reino da Inglaterra no século XVII vivia seu alvorecer da riqueza. Os reinos espanhol e francês viviam crises. O primeiro era de conflitos coloniais, e o segundo de conflitos religiosos. Piratas holandeses e turcos rondavam o mar mediterrâneo, onde a batalha de Lepanto(1571) conseguiu afugentar estes últimos momentaneamente. Mas os peregrinos do Mayflower eram diferentes. Eram colonos em busca de uma nova vida. Traziam a religião, os estudos e o trabalho como bagagem para o novo continente. Mas não era só isso. Traziam a perspectiva de uma nova vida para os colonos também.

A queda dos reinos espanhol e português, além dos conflitos religiosos franceses, eram um caminho aberto para o expansionismo inglês pelo mundo. E o 1° passo para isso foi o Ato de Navegação, em 1651, que decretava o monopólio dos navios ingleses nas exportações e importações do reino. Este ato entra em conflito com a companhia das índias holandesas, havendo guerra entre ambas as potências marítimas, vencida pelos ingleses.

Assim, no outono de 1620, embarcavam 102 ingleses, para a concessão da coroa inglesa próxima ao rio Hudson,bem mais ao norte que as outras fundações inglesas. Finalmente, em 11 de novembro de 1620, os peregrinos chegaram ao cabo Cod, no atual estado de Massachusetts. Ali fundaram a cidade de Plymouth, na nova colônia de Plymouth. Ali nascia os Estados Unidos da América, ainda que fossem apenas as colônias do norte.

Ao estabelecer essa colônia, muitos sabiam que a vivência no local seria difícil. O inverno estava chegando e as provisões não eram muitas. Famílias inteiras morreriam naquele inverno. Aqueles que sobreviveram ao primeiro inverno, celebraram o Dia de Ação de Graças junto a muitos índios, sempre no início do outono. Somente em meados do século XIX que o presidente Abraham Lincoln fez disso um feriado nacional. E em meados do século XX o presidente Franklin Roosevelt passou o feriado para novembro, para ficar próximo ao natal. O Canadá também possui tal festa, mas não é unânime. E o Brasil resolveu copiá-la no governo Gaspar Dutra, através da lei n° 781. Mas isso está completamente fora do nosso contexto, só sendo repassada devido ao complexo de vira latas de Joaquim Nabuco, por este ter ficado impressionado quando visitou Nova Iorque. Em 1966, já no regime militar, a lei n° 5110 estabeleceu a quarta quinta feira de novembro como data. Várias denominações protestantes brasileiras, assim como cursos de inglês, a comemoravam. Assim tivemos a nossa festa ianque tupiniquim, para incluir em nossa história.

A nova colônia de Plymouth fez história no século XVII. Tinha leis civis, que no fundo eram religiosas, bem rígidas. Adultério e fornicação estavam entre os piores. Tiveram como marco o Pacto de Mayflower ou Mayflower compact , que foi o documento inicial da colônia, dele hoje só restando uma cópia do século XVII na biblioteca estadual de Massachusetts. Mas a maior herança da colônia foi a Universidade de Harvard, uma instituição privada sem fins lucrativos, que hoje recebe U$35 bilhões anuais do governo dos EUA. Tem seu nome dado em homenagem ao seu primeiro feitor, John Harvard(1607-1638), pastor Congregacional. Embora a universidade fosse secularizada até o século XIX, sua base foi protestante. Hoje é a melhor do mundo!

A chegada dos puritanos ingleses no novo mundo retratava muito do que eles eram no velho mundo: Uma geração teocrática, que imaginava poder implantar um reino de Deus na terra. Tanto que o próprio Oliver Cromwell, chefe da revolução puritana, para montar um exército em rebelião contra os impostos do rei, escolhe um batalhão dividido entre quatorze esquadrões, de homens que não bebem, não jogam, pois diz que prefere homens de fé a homens de honra. Com este batalhão, ele desbarata as tropas de cavaleiros do rei Carlos I, da Inglaterra. Era uma espécie de Donald Trump da Inglaterra moderna. Com a diferença deste ser mais verdadeiro e honesto que o atual chefe de estado norte americano. Mas nem tudo era ruim, e fanático, para os novos peregrinos da América do Norte. Suas leis rígidas, principalmente no norte das colônias, eram instituídas mais por medo do caos social, do que beatice. A famosa "caça às bruxas de Salem", no estado de Massachusetts dos finais do século XVII, são um exemplo disso. E muitas dessas leis das colônias ofereciam mais liberdade do que as leis inglesas, por exemplo.

O colono puritano via a democracia com desconfiança. Só se aceitava teocracia, o que na prática era Oligarquia. Por outro lado os valores mudariam. E todos saberiam que essa história de "pátria de Deus" não existe. A Revolução Científica do século XVII, impulsionada pelos próprios colonos, veio transformar o espírito empreendedor dos puritanos, que logo transformou-se em ianque. A marcha para o oeste no século XIX deve-se a isso. Então o que era bíblico tornou-se obsoleto. A teocracia converteu-se em capitalismo arcaico. E logo os ideais da Revolução Francesa, e da Marselhesa, eram absorvidos nas colônias da Nova Inglaterra...

Assim, o país que em 1783 possuía cerca de 2 milhões de Km2, passou para os atuais mais de 9 milhões de Km2, contando com mais de 1,5 milhão Km2 do Alaska. E tudo isso graças à marcha para o oeste, ao Destino Manifesto, que pelo qual se propunham a ser o país que levaria a moral judaico-cristã para todo planeta terra. Esta é a razão principal pelo qual os norte-americanos estão intervindo em várias guerras pelo mundo, desde a 1ª guerra mundial. Além da ganância de seu empresariado, claro. Pois estes mantém a moral dos puritanos apenas no nome. São como os petroleiros do Texas, que apenas visam o lucro de suas companhias no Oriente Médio.

O atual país norte-americano é fruto de tudo isso. É fruto das ideias de Max Weber, o sociólogo alemão que acreditava existir um capitalismo honesto, baseado na moral e honestidade protestante. Esse é o país empreendedor que, desde o empresário Richard Sears, do estado de Minnesota, até o empresário e engenheiro mecânico Henry Ford, do estado de Michigan, conseguiu se tornar o 1° país do mundo. Mas, assim como o antigo império romano, sua grandeza anuncia sua ruína.

Referências bibliográficas

1)HENDERSON, William Otto. A Revolução Industrial:1780-1914. Tradução:Maria Ondina. Verbo: Editora da USP. 1979.

2)CRÉTÉ, Liliane. As raízes Puritanas. Revista História Viva, nº 17, ano II. Tradução:Alexandre Agabiti Fernandez. Editora Duetto. 2005.

3)MICKLETHWAIT,John e WOOLDRIDGE,Adrian. COMPANHIA: Breve história de uma idéia revolucionária. Tradução:S.Duarte. Editora Objetiva. 2003.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Senhor dos francos, protetor do papado

Hoje faz 1220 anos que foi coroado Carlos Magno, na Catedral de São Pedro, em Roma. O primeiro rei que unificou a Europa, após a queda do Império Romano. Se existiu um berço para uma Europa unificada, uma espécie de proto União Europeia, veio dele.

Carlos Magno era um gigante para sua época, quase 1,90m. Sendo um gigante na cultura também, promovendo o famoso "renascimento carolingio", que começou a devolver a leitura e ciências para a Europa, após a queda do Império Romano. Apesar disso, era completamente analfabeto, somente aprendendo a ler aos 32 anos. E usou seu próprio renascimento cultural para se informar na literatura cristã medieval. Gostava de debates de temas teológicos, tendo rejeitado o marianismo que vinha do Império Bizantino, na época chamado de Império Romano do Oriente. Isso fez ele entrar em certos conflitos com o papa Adriano I, também seu amigo pessoal.

Muitos hoje não sabem, mas a veneração por Maria não provém da Igreja Romana, mas das igrejas ortodoxas. Tal veneração não surgiu em Roma, mas na esfera helenística de Bizancio, no concílio de Éfeso(431 AD), ao dizer "Maria mãe de Deus", ao invés de "Maria mãe de Cristo". As divisões teológicas entre Roma e Bizancio eram maiores do que hoje. E não só isso, as divisões políticas também. E no reinado de Carlos Magno isso ficaria por demais evidente.

Carlos Magno, rei dos francos e dos lombardos, assumiu o reino franco no ano 771. Mas não seria coroado rei. Não ainda. Imediatamente passou a fase de conquistas. Em 774 conquista o reino de Desiderio, da Lombardia, tornando-se então rei dos lombardos. E fez isso, a princípio, para defender o papa Adriano I, que se tornou grato ao rei, desde então. Suas conquistas pareciam não ter fim. Envolveria os saxões, que lhe dariam um trabalho imenso; os árabes da península ibérica, que para isso faria um tratado de paz com Harun Al-Hashid, califa de Bagdá, que também pretendia derrotar os árabes da Iberia. O único inimigo que ele viu que não daria para vencer foram os vikings, onde de fato iriam invadir seu reino, bem depois da sua morte.

Carlos pegou um reino inculto, mas colocou o clero romano para educar seu povo, e até a ele mesmo. Não havia outra saída na época. O latim passou a habitar as missas na francônia(França e Alemanha atuais), fazendo o povo presenciar um teatro sacro na missa, do qual não entendiam nada. Muitos movimentos rebeldes contra a igreja surgiriam mais tarde por causa disso.

No dia 25 de dezembro de 795, falecia o papa Adriano I, amigo pessoal do rei dos francos,então com 95 anos. E também daria adeus a seu aliado de debates teológicos. Carlos ficou muito triste, mas nem conseguiu imaginar que perdera muito mais que um amigo. Com a morte de Adriano, o delicado equilíbrio que havia entre as monarquias germânicas e o papado terminara. Muitas coisas ruins aconteceriam até mesmo depois da morte do rei. Para a igreja, e para o estado.

O trono de Carlos ficava na cidade de Aquisgrano, na época em território belga, hoje seria a cidade alemã de Aachen(ou Aix-la-Chapelle em francês), onde Carlos recebia seus vassalos, senhores feudais que lhe deviam obediência. E dependiam totalmente dele, pois no tempo do seu reinado ainda não havia a capitular de Quirzy-sur-Oise, que determinava o princípio de hereditariedade dos feudos, dando uma profunda independência da nobreza em relação à realeza feudal germânica. Essa capitular seria baixada por seu neto Carlos, o calvo, em 877. E aprofundou as dificuldades feudais, assim como retirou boa parte da autoridade real.

Uma outra coisa que enfraqueceria a autoridade real seria a concordata de worms, em 1122. Esta concordata retiraria dos imperadores germânicos, sucessores de Carlos Magno, a autoridade de nomear os bispos. Esta nomeação agora caberia ao papa. A monarquia germânica não era hereditária, mas eletiva. Então o imperador era um dos duques germânicos, eleito pelos outros. E o que garantia sua governabilidade eram os bispos, com suas terras. Assim, sem poder sobre os bispos, o imperador perdia o controle sobre os duques. Os bispos não seriam mais funcionários do estado, mas vassalos do Império. E não devolveram os territórios recebidos pelo imperador, se tornando verdadeiros senhores feudais do século XII. Esta associação de reis medievais e o clero, numa lógica "em nome do pai e dos feudos", ainda sairia caro para a igreja, e para muitas monarquias medievais. Quantas coisas adversas ocorreram após a morte de Carlos Magno....

Com a morte do papa Adriano I, assumiu Leão III. E não foi uma posse fácil, pois a nobreza italiana era em peso contra ele. Ele não tinha ascendência nobre como Adriano, nem tinha a etiqueta e a educação do antigo papa. Chegou a ser sequestrado e espancado por adversários da nobreza romana. Foi libertado pelo rei dos francos, indo com ele até Roma no ano 799. Mas o papa viu que o rei franco possuia um carisma devoto pelo povo italiano que ele não tinha. Foi então que lhe surgiu a ideia de coroar o rei.

Assim, na manhã do dia 25 de dezembro do ano 800, exatamente cinco anos depois da morte do papa Adriano I, o papa Leão III procedeu com uma atitude desconhecida da história da igreja cristã. Nos moldes dos profetas do antigo testamento, o papa deu a entender a todos que um rei só era rei se fosse coroado e sagrado pela graça de Deus, ou seja, do papa. Isso inaugurou essa prática anti bíblica que atravessou os séculos da idade média. E assim, uma multidão da basílica de São Pedro gritava:"Longa vida e vitória a Carlos Augusto(atributo divino), coroado por Deus, poderoso imperador dos romanos e amante da paz." Só tem dois detalhes: Carlos nem era amante da paz, nem imperador dos romanos, pois esse título cabia ao imperador de Constantinopla, ao monarca do Império Bizantino. Mas, com os reinos árabes islâmicos arrombando as portas do Império de Constantinopla, Bizancio não poderia reagir a essa provocação. Nesse ponto, tem razão o historiador Henri Pirenne, ao dizer que "Maomé foi o primeiro a tornar Carlos Magno possível". E eu diria não só Carlos Magno, mas também a própria autoridade universal do papado, que mais tarde, cerca de 700 anos depois, seria rebatida pela Reforma Protestante. Mas isso já é outra história...

Referências bibliográficas:

1) PIRENNE, Henri. HISTÓRIA ECONÔMICA E SOCIAL DA IDADE MÉDIA. Editora Mestre Jou. 1978.

2) BANFIELD, Susan. Grandes Líderes: CARLOS MAGNO. Nova Cultural. 1988.

3) KÜNG, Hans. A IGREJA CATÓLICA. Editora Objetiva. 2001.

Estátua de Carlos Magno, em Frankfurt, Alemanha.

sábado, 11 de julho de 2020

A tendência laica do ocidente

É cada vez mais comum em redes sociais de cunho conservador imaginar a queda, a destruição, o esfacelamento da cultura ocidental.

Mas o ocidente não cai. Se reinventa. É isso que vem acontecendo desde os anos 90, dentro daquilo que chamamos de politicamente correto. Agora está sendo montado um futuro que muitos duvidam. Esse delírio de que o islã pretende engolir a Europa não passa de fantasia. O que está sendo montado ultrapassa a mais maquiavélica imaginação humana. Muito ainda vai mudar neste planeta...